V.I.T.R.I.O.L – Ancorando os Céus na Terra.

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Phanes, o Revelador.

A Telesmata é a palavra que designa a confecção de talismãs como a confecção de uma Imagem divina onde complexos procedimentos teóricos e práticos se encontram a fim de efetivar uma antiga filosofia presente na maioria das escolas de magia. 

 A base da magia talismânica tanto quanto a maior parte da magia cerimonial, clássica, é a ideia do Vinculum Vinculorum ou a “Corrente das Correntes”, que é Eros de Giordano Bruno, como a capacidade de exercer o prazer sensual ou da atração psico-sexual (não necessariamente física) para manifestar uma unidade ativa e transformadora.

A “fantasia” como um artifício artístico abarca a capacidade imaginativa que conecta elementos naturais com aspectos divinos, ancorando os Céus na Terra ou o Espírito-Pneuma na Matéria-Hílica e fazendo até milagres ocorrerem e posto isso eu diria que a Teurgia, para mim, é a efetiva manifestação e unificação do Trabalho Pneumático-Espiritual na realidade Material-Hílica, simplesmente dizendo é a fundamentação de qualquer prática mágica efetiva.

Se você achou até aqui, contudo, que na magia e feitiçaria clássica era só imaginar alguma coisa com muito fervor que você ia poder dobrar o mundo ao seu bel prazer… tenho algo pra te dizer:

A força espiritual é volátil, ágil, incorrompível e nos escapa sempre que achamos poder condensá-la em qualquer tipo de objetividade, ainda assim essa “caça” sempre nos rende bons frutos e ao analisarmos as pegadas e traços de nossa “presa” nós adquirimos mais e mais medidas e conhecimentos que nos possibilitam, ainda em vida, encontrar meios para alcançar essa realização. 

A forma material por sua vez é (embora não “maligna) estagnada na realidade, corrompível, ilusória, fixa e embora mutável é um tanto quanto agarrada a sua matriz de manifestação. Se, contudo, conseguimos volatilizá-la, isto é, encontramos em nós a capacidade de espiritualizarmos, ou melhor, de realizarmos a natureza e virtude espiritual latente, nós estaremos em vida trazendo uma porção dos céus para a terra e elevando uma porção da terra aos céus.

Portanto nossa Alma se transmuta, transmigra em uma Imagem Divina “Assim na Terra como nos Céus” capaz de realizar sua natureza “como os deuses” e tomar em suas mãos seu Destino embora poucos saibam o que isso verdadeiramente significa e talvez se soubessem não desejariam tão fortemente encontrar-se com essa ordália. Por simples analogias e percepções psicológicas, até inconscientes, o mago pode realizar tal ancoragem de forma “simpática”, isto é, por similitude onde elementos percebidos conscientes e inconscientemente formam a disposição e aptidão a serem evocadas (externalizadas) como algo divinamente inspirado.

Nisto, jaz uma complexa filosofia onde “Tudo” (todas as coisas individuais) são partes presentes no Todo (A Totalidade, o UM) e para tanto, as “partes” deste prisma ou joia compõem uma realidade multifacetada e naturalmente emanam, refletem e são preenchidas por uma substância invisível, uma luz astral, uma matéria prima cósmica, negra, ao qual por reificação (transformar conceitos abstratos em objetos) o feiticeiro-mago realiza a ancoragem das estrelas na cruz da matéria física.

Através da Imaginatio Vera, a fantasia transcendental ou “Imaginação Verdadeira”, o mago consegue replicar o Ovo Órfico primordial, o Vaso e Útero da Criação onde o Filósofo, o verdadeiro mago, se torna não só um peregrino mas também um  malabarista, um alquimista, um louco e finalmente um sábio-mago.

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 Plotinus, iniciador do neoplatonismo, estabelece a raiz de tal doutrina metafísica onde a Mônada, a Unidade Universal, causa e gera outros níveis e emanações de existências chamadas de “hipóstases” como realidades essenciais e substanciais para a manifestação do Divino, máscaras universais e ancestrais de “Deus”. 

Dessas hipóstases, convém citar o/a Nous que é a Mente Divina ou o Divino Intelecto, fundamentalmente andrógeno e análogo, de certa forma, à uma substância à lá Proteus, manifesta, mercurial e transformativa.

  • Se por um lado tal substância feminina Ela se manifesta, ao nosso ver, como Dama Sabedoria, o Destino-Fado (Ananke, Nornas, Hekate) e a Mãe Natureza (Cósmica, não somente terrestre) descrita em Provérbios 8.
    Mãe.
  • Se por outro a substância é percebida como masculina Ele é, ao nosso ver, o Titânico “Pai de Todos’, Cain, Aegipan, Anu, Aion, Chronos, Pimandro, Poimandres, a Ordem Cósmica ativa, o Logos e o Pastor Divino dos Homens. Pai.
  • Ambos se conectam e são expressos no Grande “Eu Sou” ou “Eheye Asher(a) Eheye”, o Redentor, o “Reverendo”, Lúcifer, Eros (Daemum Magnus) e Phanes o Revelador. Filho/a. 

  Como um órgão e faculdade da Alma a imaginação aborda a uma realidade intermediária ou da Mente Divina, do Mundo Noético, em que o Um (Unidade) se torna primeiramente Nada para depois se tornar Tudo e a partir disso retornar e extrair a quintessência pneumática, espiritual, de um dado objeto externalizando a mesma e fazendo com que o próprio magista se torne o Divino por ato de replicação de pares e semelhantes e que o Divino se torne o magista pelo mesmo princípio.

Do Nous, a Mente Divina, a Unidade se desdobra dos “Véus Negativos” para os Positivos e adiante como 7 Arcontes que se relacionam diretamente com as esferas clássicas dos planetas e certos pontos no corpo humano que, quando incitados corretamente, se tornam um veículo, um Compasso para o sábio. 

Segundo o gnosticismo e o hermeticismo a Alma deve descender pelos Sete Arcontes antes de chegar nessa realidade e ao deixá-la a mesma deverá passar em ascensão novamente pelos Sete Portais (de percepção) a fim de transcender ao mundo angelical, celestial da Mente Divina – O Nous. Em seus primórdios essas Sete Divindades eram tidas pelos povos caldeus e mesopotâmicos como sendo os regentes do Destino da Humanidade que dispensam a “fortuna” e os “lotes” dos homens, deuses neutros mas capazes de ambos “bem” e “mal” de acordo com os decretos da Dama Fortuna/Necessidade/Fado e posteriormente assimilados e relacionados com Sete Anjos/Arcanjos e Sete Demônios durante a Idade Média. 

De acordo com a Tradição Mística, o objetivo de uma pessoa sábia seria quebrar com os ciclos de repetição e “subjugação” pelos quais os Arcontes exercem suas influências. Ao superar seu lote, seu  destino seria superado e o Verdadeiro Graal seria encontrado: o Argent-Vive da Alquimia e a natureza real do Mercúrio Três Vezes sábio, a Matéria Prima da Mônada (Unidade). 

Curiosamente, muitas vezes os Arcontes são tidos como pares de Masculino-Feminino, dando a noção de uma androgenia/hermafroditismo espiritual ou, as cobras do cajado de Hermes, embora verdadeiramente, sugerindo um terceiro pensamento onde uma nova, terceira realidade surge além de qualquer gênero físico mas sim intrinsecamente conectados por uma virtude inerente.

Em nosso corpo, os Sete Arcontes como já mencionados configuram Sete Centros Energéticos que causam uma inundação de substâncias físicas e espirituais “rio-acima”, possibilitando o encontro de nosso fogo invisível do Lúcifer Interior, o Deus Negro dentro de nós.

O “Rei Sol” (Vermelho) da Alquimia representa o lado Direito do corpo e o Pilar da Iluminação-Forma, enquanto a Rainha Branca/Preta/Azul corresponde com o Pilar Esquerdo da Escuridão-Força, ambos facetas e manifestações do influxo Divino. Tal presença e corrente comumente aparece como um raio ou espada de fogo celestial, estelar, descendendo pelos portais dos sábios até que, incitado pelo som do Nome Sagrado composto de certas vogais, revela seu Mistério, como o Homem-Mulher Primordial (Dourado), a sagrada imagem da Humanidade se revela. Aqui, Homem conhece Lúcifer em si mesmo.

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Transmutando-se pela morte ou ausência de suas armaduras e roupagens, nu e exposto para a Noite requerida ao Trabalho, o Espírito penetra a Alma residente e por retificação ao volatilizar o fixo e fixando o volátil, a Forma-Força Divina, unificada em seu vaso, o Ovo do Filósofo, ascende como uma serpente alada por entre os mesmos portais pelo qual o fogo estelar descendeu, passando por seus guardiões, Vigílias da Sabedoria, e vencendo-os o sábio recupera sua joia, a Lapis Exilis, o Graal que serve a todas as necessidades. Aqui o Homem é como os Deuses.

Este é a fórmula de 7 letras do V.I.T.R.I.O.L no corpo do Homem: “Visita Interiorem Terrae, Rectificando, Invenies Occultum Lapidem” ou Visita o Centro da Terra, Retificando-te, encontrarás a Pedra Oculta (ou Filosofal).

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Pela Cruz, o quaternário terreno: Água, Fogo, Terra e Ar, aqui na Terra-Média o homem entra em um estado de “entre-mundos” e suspenso, guiado por seus ancestrais ele se depara com a realização de que “Eu sou o Sacrificador, o Sacrifício e o Sacrificado”, como diz nossa prece e bênção.

Em nossa ciência o “Rei” se manifesta em nosso corpo como a Cabeça, o Coração e a Raiz, como Pai, Filho e “O Irmão” a ser “retificado” e reabsorvido na Trindade como uma capacidade unificadora e conectiva.

Um é eterno e o outro é temporário, um é mortal e o outro imortal, um é “lunar” e o outro “solar” ou talvez “diurno” e “noturno” seria melhor dizer, um é revolto e o outro é estável, um é evolução e o outra estagnação a ser combatida, um é agricultura e o outro é o caçador-nômade-coletor, um é do Espírito e outro da Carne e ainda assim, ambos são retificados em uma terceira e perfeita unidade. Inclusive vale notar que em algumas versões, como em Cain e Abel os irmãos não se entendem e precisam se superar para progressão mas em outras como em Emesh e Enten os aparentes opostos são reconciliados a despeito de muita disputa violenta (ninguém disse que seria fácil, não é?).

Para complementarmos nosso estudo, vamos analisar as palavras de Hermes Trimegistus o Divino Pastor em seu diálogo:

  1. Porque o primeiro deve guerrear contra si mesmo e depois de muito Conflito e Dissensão, isto deve ser superado de uma parte; pois a Contenda é de um contra dois, enquanto ela voa e eles se esforçam para segurá-la e detê-la.
  1. Mas a vitória de ambos não é igual; porque um se apressa ao que é Bom, mas o próximo é vizinho daquelas coisas que são Más; e aquilo que é Bom, deseja ser posto em liberdade; mas as coisas que são mal, amam o Cativeiro e a Escravidão.
  1. E se as duas partes forem superadas, elas ficam quietas e estão contentes em aceitar isso como seu Regente; mas se o um for superado pelos dois, ele é liderado e carregado por eles para ser punido pelo seu ser e continuar aqui.
  1. Este é, Ó Filho, o Guia no caminho que leva para lá, pois você deve primeiro abandonar o Corpo antes do seu fim, e obter a vitória nesta Contenda e na vida Conflituosa, e quando tu tiveres superado, retorne.

Filho e Irmão formam a dinâmica dos “tanists”, do Predecessor e Sucessor ou Velho e Novo Rei, Carvalho e Azevinho. A Rainha é Celestial, Terrestre e Infernal, branca para trabalhos de bondade e enegrecida para os de escuridão, tal como Cochrane professava e tal como Graves e Redgrove ambos especularam e buscaram a Deusa Branca e a Deusa Negra, respectivamente.

Para finalizar, ofereço a contemplação da obra do Dr. John Dee que sabiamente formulou um sigilo místico com traços dessa ideia em sua Monas Hieroglyphica onde todos os símbolos planetários se entrelaçam para formar uma Unidade (a Mônada) coesa: 

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Na imagem podemos ver de forma simples a Lua, o Sol, os Elementos e o Fogo Divino (Shin) como também parte da trindade Cósmica Kabbalística, das três Mães. Em uma análise mais profunda, contudo, podemos ver, inclusive, todos Sete Planetas expressos neste simples mas efetivo sigilo:

75faa6a4d1b34931c17a7f6b0f188d67 – Lagrillon.

 

O Poder da Observação – Feed Your Head.

 

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Altar e magista, capa de O Livro de Los – William Blake.

Hoje vamos falar um pouco de um tópico subestimado dentro da maioria do público “bruxo”. Infelizmente muitas pessoas que começam em um caminho místico, seja qual for, mas em especial na Bruxaria ou na Arte se sentem um tanto quanto inertes em relação ao desenvolvimento pessoal quando percebem que ao adentrar em um grupo ou em uma corrente mística, boa parte de “por a mão na massa” envolve, primeiramente, um movimento muito reflexivo de interiorização e individuação que na verdade se extende para a toda vida, ganhando apenas novas camadas de trabalhos, umas mais internas e outras mais externas.

Todo e qualquer caminho que se preze não irá tomar por garantido que uma pessoa iniciando em seus passos irá ter capacidade, independente de sua experiência anterior em outros caminhos, de entrar por suas portas com os dois pés para em seguida operar toda a orquestra e sinfonia que existe dentro de seus salões de trabalho. Eu não sei vocês, mas não é qualquer um que entra na minha casa, é necessário um trabalho extenso de confiança e e reciprocidade e que demora o tempo que tiver que demorar para ambas as partes se sentirem confortáveis o suficiente de compartilharem um mesmo espaço metafísico.

Infelizmente muitas pessoas acreditam e tem a impressão que esse processo iniciático é algo passivo e inerte ou “moroso”, custoso e lento mas grande parte do processo de reflexão como toda boa meditação é na verdade uma viagem extremamente ativa de inúmeras partes de nós mesmos. As massas e a modernidade fluídica, contudo, certamente dão para as muitas das novas gerações algum tipo de sentimento em que “possuir” é sinônimo de “fazer” efetivamente, mas devemos sempre lembrar que “bons livros não te fazem um bom cozinheiro” e como aprendi duramente com uma sábia da Arte, bons feitiços, não importando o quão antigo sejam, não te fazem um bom feiticeiro ou bruxo. Nesse sentimento, é impressionante a quantidade de pessoas que tentam forçosamente empurrar a porta de Ordens, Clãs, Famílias e Cuveens com algum tipo de sentimento de “direito” de adquirir e possuir algo que algum grupo possa ter.

Quando isso falha e essas pessoas se frustram o primeiro movimento é o de criar algo próprio, de possuir algo seu já que é impossível alcançar o do outro. Surgem, diariamente, nas redes sociais, inúmeras páginas de ordens e linhagens fabulosas de culturas ancestrais ironicamente jamais tocadas verdadeiramente por seus proponentes. Não me entenda errado, não há problema nenhum em criar algo seu e fundar novas correntes, ordens ou o que seja mas quando isso nasce de uma frustração ou de uma revolta por rejeição, isso se torna algo muito perigoso em um chão lamacento e escorregadio tanto para o/a/os criadores quanto para os seus futuros estudantes.

 É verdadeiramente o conhecimento da natureza do Trabalho, interno e externo, bem como de seus componentes e seus usos que nós podemos começar a buscar algum tipo de praticidade teatral para a mente pois verdadeiramente todo rito, ritual seja ele de adoração e celebração ou de feitiços é realmente um espetáculo para que a nossa mentalidade consiga abrir suas portas e portais para o Outro operar.

Vale dizer também que pela **nossa** perspectiva, qualquer “invocação” não é um chamado para que a divindade venha até nós, mas é um chamado interno para o nosso próprio Self se mover em direção à natureza divina que **nunca** é ausente, mas ao contrário sempre presente na natureza, na Matriz Cósmica e além. Como poderíamos fazer isso, contudo, se sequer venhamos a entrar em contato com nossas faces e divindades internas?

Longe de mim julgar o caminho alheio, mas é triste ver inúmeras pessoas obcecadas com algum tipo de suposta prática quando elas sequer entendem o básico do trabalho interno necessário para mover as muitas rodas metafísicas que viabilizam o Trabalho. Enquanto não trabalharmos com as partes fundamentais, com os verdadeiros pilares do condicionamento energético e astral que buscamos, não importa o quanto nós venhamos a posar como “bruxos” envoltos em capas de veludo na sala de estar, nós nunca iremos alcançar o Outro ao menos na Arte.

Isso porque Os Antigos, os deuses, heróis e ancestrais da Fé não se importam nem um pouco com algum tipo de apresentação enfeitada, a maneira que eu aprendi é que eles estão lá a muitas gerações antes de nós. Eles viram impérios levantarem e caírem, estrelas erguerem-se como reis e rainhas e reis e rainhas caindo como estrelas ao chão. Eu particularmente não conheço nenhum verdadeiro homem ou mulher sábia que ouse achar por algum momento que as nossas vestimentas glamorosas ou que nossos instrumentos sejam aquilo que nos faz alcançar o Outro. Enquanto não pisarmos com o pé no chão para sentirmos cavalgarmos as forças e correntes que nos transpassam, enquanto não aprendermos a criar uma fonte de águas vivas, águas que correm e emergem do Inferno, do submundo, de nossos próprios demônios retificados em sua verdadeira natureza divina, jamais alcançaremos voo para o Reino de Elphame. É preciso olhar para dentro para depois conseguir ver o que há lá fora.

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Capa de Jerusalem – William Blake.

Mas o que é a “individuação”?

Como individuação entendemos um movimento de olhar para dentro de si e buscar pela reflexão e maturação do “Self” uma maneira de abstrair, discriminar e dissecar nossos componentes afim de retificá-los ou moldá-los mediante a necessidade de uma forma que seja útil, proveitosa e saudável. É um trabalho terapêutico e para uma vida inteira, verdadeiramente essa percepção traz um nível incomparável a qualquer outro de “iniciação” ao espírito.

A “Arte” leva esse título também porque é através de tal ofício e de seus instrumentos que nós realizamos essa forja. Nós reverenciamos uma deidade do fogo (celestial, terreno e infernal), do sexo, da fertilidade e das “baixas magias” não porque nós somos trevosos e projetamos algum tipo de insatisfação sexual nas nossas práticas mágicas, mas porque é dando ignição e brasa para as partes mais “brutas” de nosso ser que nós ascendemos como um corpo ígneo, à lá Fênix

Nesse processo a profunda individualização é buscada como um meio para alcançar um estado onde encontramos a realização que o “Todo é Um e o Um é Todo”, isto é, nós compartilhamos como o Todo uma singularidade e ao mesmo tempo uma pluralidade, paradoxalmente essas duas coisas são “Ambas como Um”. Na morte nós encontramos a nulidade dos traços e assinaturas passageiras que faz com que nossa individualidade superficial e temporal seja dissolvida ao Todo.

Até lá, contudo, nós usamos das ferramentas brutas e dos materiais crus que encontramos em nós mesmos e na natureza (cósmica) para identificarmos a parte de nós que vem das estrelas, que reflete as esferas celestiais e os corpos astrais sendo essa parte de nós aquela que é instigada pela chama do que chamamos de “Lúcifer Negro” como uma presença interna individualizada da luz invisível, da manifestação do Logos dentro do íntimo de cada ser.

O processo de individuação pode ser visualizado como uma transformação em um casulo onde buscamos esse movimento internalizador e reflexivo e é importante notar que esse processo não se finda na ativa busca interna, mas também em sua realização externa em diferentes etapas na vida deste embrião que almeja a liberdade e o espaço externo que obviamente não vem sem suas próprias ordálias e responsabilidades individuais e coletivas.

Desta forma, a genérica forma da lagarta “neófita” passa por essa forja e se molda em sua individualidade em um belo processo que almeja essa realização não narcisista de sua natureza em diversas etapas de formação e entendimento de suas composições, de sua Vontade, de seus instrumentos e de sua Grande Obra exalada dentro desse ofício como uma forma artística e representativa de seu próprio reflexo divino, de sua fagulha sofiânica.

Como fã de Lewis Carroll e de sua obra em Alice no País das Maravilhas e Através do Espelho, não posso deixar de citar que inclusive esse processo metafórico da lagarta é usado como um psicopompo para a Alice nas cruciais primeiras palavras da mesma para a jovem garota: “Quem é você?”. Ao que a garota responde inocentemente: ‘Eu — eu mal sei, senhor, no momento — ao menos eu sei quem eu era quando eu levantei esta manhã, mas eu acho que devo ter sido mudada várias vezes desde então’.

E não é esse verdadeiramente o processo de transmutação e individuação? Uma constante revolta, uma constante revolução luciferiana, cainita, de movimento andarilho entre espaços civilizatórios e primais de nós mesmos e do Outro ao ponto de que “quem somos” não se torna um ponto final, mas reticências indicando um devir, um constante estado de aperfeiçoamento como sinal de nosso progenitor e Pai Cain?

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Cain e Abel – William Blake.

Como nós acreditamos que os deuses são veículos moldados por nossas próprias inclinações e projeções para uma reflexão e corrente de força divina, esse processo de individuação nos dá a capacidade e oportunidade para refletirmos acerca de nossa natureza divina e sermos “como os deuses”, assim como a Serpente ensinou Eva. Nesse sentido, nós verdadeiramente encontramos uma apoteose, embora não com o propósito de exercermos algum tipo de autoritária vontade sobre o mundo ou de algum tipo de desejo infantil de que as coisas sejam sempre como desejamos por algum tipo de assumido “poder”.

Ao contrário, para nós a realização dessa apoteose vem com um profundo senso de entendimento em relação ao nosso papel como seres estelares, divinos e reflexivos em na realidade hílica, isto é, da matéria. Esse despertar nos faz buscar entender quando e onde exercermos nossa Vontade, onde e quando agir, onde e quando não agir e silenciar. Como guerreiras e guerreiros nós precisamos entender os perigos e as necessidades em uma batalha, quando erguer o escudo e a espada e quando abaixa-los, Severidade e Misericórdia unidos “Ambos como Um” afim de encontrarmos a Graça divina.

Caminhar como deuses na Terra não significa que você vai ter uma multidão de adoradores e bajuladores e que vá subjuga-los a algum tipo de servidão e aprisionamento como infelizmente muitos ditos “líderes” e estrelinhas do ocultismo acreditam ser a realização de sua “divindade”. E isso diz muito sobre essas pessoas, não é mesmo? Afinal, se essa é a percepção da pessoa acerca de ser “como os deuses”, então certamente seus deuses são tão marcados pelo egocentrismo e narcisismo quanto você? Verdadeiramente nós moldamos os deuses e eles igualmente nos moldam.

Como disse Jefferson Airplane em sua música White Rabbit, referenciando Alice e Caroll novamente, “feed your head”.

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A Mistagogia do Calvário

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Santa Sophia por Eileen McGuckin.

Nós do Cuveen do Cervo Branco somos gnósticos, buscadores de Sophia e seus amantes. Nos denominamos como homens e mulheres sábias não porque nos consideramos como sendo gênios ou ícones, mas sim porque a sabedoria é o nosso alvo, nosso objetivo e sabemos que o verdadeiro sábio não é aquele que acredita ter encontrado o fim de sua busca em si mesmo, mas sim aquele que reconhece em humildade que nossa Amada se encontra espalhada e refletida de forma vasta na abrangente paisagem da existência.

Frente a tal diversa manifestação, nosso trabalho é o de reconhecer primeiramente em nós e depois no Outro a verdadeira chama de Lúcifer, aquela que fala da transmutação dos metais densos em nobres e da necessidade de estarmos sempre colocando força para que os ventos que fortalecem a Forja estejam sempre equilibrados em medida certa, para não apagar tanto quanto para não superaquecer a mesma.

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Apollo na Forja de Vulcanus/Hefesto por Diego Velazquez.

Tal chama crística nos diz acerca de uma necessidade inata no âmago de cada um de nós em estarmos sempre a par de nossas mutações, dos ciclos da vida e da imperativa de engajarmos com o Trabalho, sempre, em devir, isto é, sempre em constante evolução ao invés da estagnação. Essa chama é das estrelas pois é na Noite e no Cosmos que nós vemos os padrões e os desenhos que nos falam sobre a perfeição da Cabeça de Deus.

Infelizmente o conceito de perfeição é normalmente tido como uma espécie de resignação, como se houvesse um termômetro no qual o mercúrio interno alcançasse um máximo e ali parasse contido em sua própria margem de perfeição. Quão irônico é pensarmos em limites quando falamos de perfeição, uma vez que assumimos que o Universo é a manifestação da Mente Divina e da Cabeça de Deus e que a mesma é perfeita em si mesma, não deveríamos estar conscientes de que o fenômeno mais constante de toda a nossa existência é senão a adaptação através da evolução?

Infelizmente na Arte ou na Bruxaria nós vemos comumente pessoas obcecadas com padrões de comportamentos que giram em torno de conceitos que elas acreditam ser arcaicas, como o da fertilidade da terra ou de feitiços repetitivos e baseados em tabelinhas e ideias terceirizadas de correspondência. Será isso, contudo, a resignação da Arte na vida dessas pessoas? Onde está a busca pela sabedoria? Onde foi parar a Arte dos Sábios?

Não, para nós estas pessoas infelizmente estão tão cegas quanto qualquer outra normativa heterogênea e religiosa em nossa sociedade. Eu já encontrei cristãos com muito mais desejo e ímpeto em direção a Verdade, ou seja, a realização mística da experiência da Cabeça de Deus, do que os ditos bruxos e bruxas que tem seu centro gravitacional em falos e vulvas.

Como hereges, nós adotamos nomes como Maria, João Batista, Lúcifer e Cristo como máscaras e receptáculos pedagógicos para os moldes de ensinamento da Arte no qual, em última instância, as forças não são nomeadas justamente por serem impossível de tornarem apreendidas por formas. Dentro dessas formas, a ideia Crística do Calvário é uma que expressa para as nossas mentes contemporâneas a perfeita relação entre a necessidade e o sacrifício

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A serpente fixa sacrificada na cruz da matéria.

Podemos entender a jornada do nazareno como sendo completamente metafórica ou de fato histórica, a relevância da provação de uma ou outra afirmação é irrelevante para nós pois o propósito da realização do exemplo é findado em si mesmo independente de sua manifestação no mundo físico, uma vez que sua luz nasce além do material ou do Astral mas sim em um plano completamente espiritual, do Tempo Além do Tempo ao qual nós nos referimos como o “Outro”.

Nesse sentido, o Cristo (ungido) é cognato, como muitas tradições de Bruxaria e da Arte presumem, com Lúcifer. Além do fato de que Cristo se referiu como o “portador da luz” entendemos também que a sua encarnação da filosofia luciferiana está no modo de operação de sua catequese e de seus ensinamentos pautados em pontos que nós elencamos como sendo, fundamentalmente cinco em número e que estão presentes em uma das mais importantes orações e bênçãos que levamos também como uma lei para a nossa existência:

Amor; Amor através da Honestidade; Honestidade através do Sacrifício; Sacrifício através da Dissolução e que nessa Dissolução nós possamos encontrar nosso Caminho de volta para o nosso Lar”

Amor; Honestidade; Sacrifício; Dissolução e o Retorno ao Lar se referem a outros cinco princípios de evolução da vida física pela qual todo ser deve passar e que os familiarizados com a Arte Tradicional podem reconhecer facilmente pelas mãos de outros autores: Nascimento, Crescimento/Juventude, Maturidade/Maternidade, Envelhecimento e Morte/Renascimento.

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Ciclos de Morte e Renascimento.

Assim, podemos conceber que o Amor é relativo ao período de nascimento onde há uma necessidade latente de recebimento de tal sentimento por parte do infante, sentimento pelo qual ele irá compreender em seu devido tempo, já em seu Crescimento e Juventude, a necessidade de ser Honesto para consigo mesmo e os outros ao seu redor.

Por duras lições que usualmente implicam uma falha na natureza humana em identificar e expressar Honestidade com sabedoria, o jovem irá aprender que isso tudo vem ao custo de muito Sacrifício e passará então para a vida adulta na qual a realização de tal princípio se tornará uma faca de dois gumes e enquanto o suor se mistura com as lágrimas ao dever a Maturidade lhe dará as ferramentas necessárias para entender e compreender sua jornada em relação a si e aos “seus”.

Quando finalmente o Envelhecimento chegar em sua porta, haverá uma Dissolução de seus conceitos prévios para a reformulação e coagulação de novos com as novas gerações que surgem diante de seus olhos. Aqui também começa o caminho para o próximo ciclo que é o seu final, a realização e culminação de todo seu aprendizado onde ele encontrará, na velhice, o Caminho de Volta para o nosso Lar onde somos mortos e ressuscitados ou Renascidos pela virtude de Nossa Senhora.

Devemos compreender, contudo, que nossa vida é feita de camadas em cima de camadas e que ao delinearmos uma vida inteira de ensinamentos pautados na Arte nós não resignamos a mesma aos que chegarem na velhice. Ao contrário é justamente isso que demonstramos ao viver com Sabedoria, que não é necessário esperarmos o fardo e os lotes do Tempo para que possamos apreender os ciclos naturais pelo qual devemos passar.

Não, para nós as estações e os ciclos da Terra não estão meramente ligados ao seu próprio Nascimento, Crescimento, Maturidade, Envelhecimento e Morte-Renascimento mas se tornam um espelho didático para o nosso aprendizado. Ao fazemos como nossos ancestrais quando estes olhavam para a Natureza (do Cosmos) e compreendiam uma partícula de suas vidas nós não buscamos meramente celebrar tais aspectos e ainda assim sermos completamente imaturos ou ignorante quanto aos nossos ciclos internos. Muito pelo contrário nós enxergamos a dinâmica acima no próprio nascer e pôr do sol, nas estrelas e nas fases da lua… nós entendemos que todos os dias nós nascemos e morremos como eles, ainda que para nós mesmos.

Ao passarmos todos os dias conscientes desses processos de aprendizagem nós esperamos que em qualquer momento que a Morte nos beije, nós estaremos aptos e prontos a realizarmos uma vida bem vivida do começo ao fim justamente por termos seguido o exemplo de ungidos (cristos) antes de nós ao engajarmos com as forças da Dama Fado e do Divil como Senhor deste Mundo a todo momento e não só aos domingos ou até mesmo só mesmo em rituais e ritos. Isso porque a Arte não é uma religião para se pegar e largar, não é uma prática que se resignada em vontades e desejos, mas em uma filosofia de vida que transforma tais sentimentos em ímpetos e necessidades, fortalecendo a vontade e a potência mágica do Self através de duras batalhas e ordálias dentro e fora do Monte Ancestral.

O desejo inicial e mais sagrado como o vínculo entre Força e Forma é de fato o Amor tanto individual quanto pelo outro. A Honestidade está também presente na figura messiânica quando Jesus diz de forma brutal uma realidade que todos nós já passamos “Eli, eli, lama sabachtani” ou “Senhor, Senhor/Meu Deus, Meu Deus, por que me abandonaste?”.

Não é este o sentimento natural de perda e abandono que temos quando estamos crucificados em nossos relacionamentos e na cruz de quatro elementos, na matéria e na realidade ilusória de Maia? Não é a dor do dever e da necessidade que nasce a dificuldade em lidar com a oposição? Não é nessa superação que encontramos o que é necessário para seguirmos em frente com a união entre nossos aparentes opostos?

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Guinever com o Graal, o cálice que coletou o sangue de “Cristo”.

Segundo a mitologia cristã, Jesus como Cristo encarnado poderia ter saído da cruz a todo momento, mas ele escolhe não o fazer e entregar seu bem precioso, sua vida bem vivida e a realidade da matéria em Sacrifício. Tal ato é tanto para si quanto para outros pois todo ato de heroísmo e de sacrifício é uma via de mão dupla, servindo tanto ao indivíduo quanto aos que veem em seu ato a potência divina ao fazermos o que é necessário ao invés do que desejamos. Certamente, contudo, seu exemplo não é realizado por nós através de dó por uma dor física, afinal muitos morreram em martírio antes, durante e desde então e de formas muito mais cruéis e dolorosas do que a de Jesus.

Embora muitos possam dizer que a filosofia cristã não tenha lugar na Arte, Robert Cochrane disse algo em uma carta para Joe Wilson que para mim sumariza toda essa filosofia de sacrifício e superação de nossas ordálias afim de cumprir com os nossos deveres individuais e coletivos quando ele diz:

“No Fado e na superação do Fado está o verdadeiro Graal, do qual a inspiração vem e a morte é derrotada”.

Para nós a realização do exemplo “lucífero” de Jesus é exatamente na realização de sua capacidade divina, na externalização de seu “deus” interno e na incorporação e vivência de sua filosofia como um todo coerente. Essa integridade para com sua filosofia, seus princípios e sua capacidade divina é justamente a Dissolução da Matéria hílica e a Coagulação do Espírito onde justamente encontramos nosso “Caminho de volta para o nosso Lar” tal como Jesus encontrou a beleza do Amor além da tumba.

Sua Ressureição ou Renascimento não nos diz respeito a materialidade, mas sim da continuidade e vivência de seu exemplo e de seus ensinamentos por todos aqueles que ele afetou ao se tornar um avatar da luz evolucionária que é fundamentalmente um instrumento de revolução interna e externa, uma ferramenta amoral e neutra tanto quanto uma espada ou uma faca.

Claro, o nazareno, tendo existido ou não, não foi o único a completar essa jornada, mas todos as heroínas e os heróis de nossa realidade física, sejam eles totalmente ou parcialmente metafóricos, expressam justamente esse exemplo de vida ungida pelo Espírito Santo (feminino para nós), pela divina capacidade de Sophia em espelhar seu Amor, Beleza e Verdade onde quer que ela resida.

O uso de uma figura crística na Arte de forma “herética” (livre) descende dos gnósticos que, acreditamos, terem sido os primeiros artífices herméticos a unirem ciências orientais e ocidentais no reconhecimento de tais ensinamentos que pregam a individuação ao invés da (ou em maior relevância do que) individualização, sendo a primeira uma jornada de (re) descoberta interna, de autoconhecimento e a segunda um processo de afirmação e expressão muito mais externa.

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Cristo Alquimista, retirado de lcaruana.com

Tal jornada, também expressa na “Jornada do Herói” do incrível Joseph Campbell é justamente a que buscamos compreender, viver e reviver de forma íntegra, afim de que possamos adquirir também a (r)evolução necessária para forjarmos nossa vida não pela negação da matéria, mas pelo engajamento com a realidade natural como um veículo, como uma escada mercurial para a gnosis através do vínculo da Beleza entre Amor e Verdade.

A expressão solar como (usualmente) masculina seja Osíris, Baal, Mithra, Shamash, Apolo, Dummuzi, Lúcifer ou Abel encontram respaldo na forma a ser sacrificada, na luz como a matéria “clara” e manifesta pela semente da potencialidade a ser apreendida pois é através da luz do Sol que podemos enxergar e compreender as cores e formas pelas quais nós entendemos o mundo, mas, ainda assim, tal potência deve ser sobreposta e superada pela realidade negra, invisível e (usualmente) feminina (por ser a origem, o ventre) do “Outro” que falamos anteriormente, tal como Shiva é sobreposto por Kali, tal como a vida é tomada pela morte e o tempo cessa a existir em enegrecidos buracos cósmicos e por fim também é o Amor como veículo sacrificial para a realização da “Verdadeira Vontade” causal da Fonte e do Fado.

Lagrillon Debast.

A Marca de Caim/Qayin.

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Ferreiro, meio dia na Forja por James Wallace.

Começamos hoje uma série de explorações místicas e antropológicas acerca de personagens célebres exaltados na Arte e nos círculos mágicos modernos e antigos.

Primeiramente gostaria de mencionar que, sim, sou consciente da enorme quantidade de artigos referente ao tema, mas espero poder contribuir com visões e perspectivas não necessariamente usuais e que podem, ao menos, serem levadas em consideração dentro de uma discussão tão ampla e válida dentro da Arte.

Em segundo lugar, quero pedir desculpas pela ausência nesse espaço do blog. Felizmente nossa Família/Cuveen nos demanda muito trabalho espiritualmente e fisicamente mas também novos projetos como uma segunda faculdade fazem com que eu tenha que deixar esse espaço para quando possível. Eu espero, contudo, que no futuro, alguns dos nossos irmãos e irmãs (kin) tanto quanto nossos associados e amigos (kith) possam contribuir para esse espaço.

De toda forma, iniciamos o tema com o que diz Ruth Mellinkoff em seu livro “A Marca de Cain”:

“A história bíblica de Cain, lavrador do solo, e Abel, o pastor, é uma mistura fragmentada de mitos; é ambos incompleta e contraditória. Os dois irmãos, cada um trazendo oferendas do fruto de seus trabalhos a Deus. A oferenda de Abel é aceita mas a de Cain rejeitada; ainda assim o texto não diz nada sobre como isso foi feito. Cain, ignorando o aviso divino nas quedas do pecado, mata Abel. Por tal terrível ato de matar seu irmão ele é duvidosamente punido – negado aos frutos do solo e condenado a ser um fugitivo errante sob a terra. Ainda assim, alguns versos mais tarde Cain funda a primeira cidade- a de Enoch.(…)” (Pág xii, tradução livre e itálicos marcados pelo autor do artigo).

Cain/Qayin foi, como apresentado acima, o primeiro arquétipo-personagem da narrativa judaica a representar a Agricultura enquanto seu irmão Abel-Hevel representava o Pastoreio. Esse padrão e dinâmica contudo ultrapassam os limites da fé judaica que muito corrompeu seus mitos originários vindo da Suméria.

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Cain e Abel.

Para algumas pessoas esse personagem é o “Primeiro Assassino”, o “Rei de Golgotha” e o “Rei da Morte”, para outros ele é o “Exilado” e o “Primeiro Feiticeiro” e ainda para outros ele é o temido e venerado “Witch-Father” ou “Pai-Bruxo”.

Na Arte Tradicional, Cain se tornou proeminentemente conhecido após Robert Cochrane ter adotado o nome de seu Clã como “Clan of Tubal Cain”. A adoção do nome, segundo sua herdeira, Shani Oates, se deve- possivelmente- ao fato de seu pai ter sido um Horseman (da Horseman’s Society). Dentro desta Sociedade britânica de mistérios, magia e processos iniciatórios, a reverência a Cain se revela através da agricultura, na premissa de que ele foi quem inventou o arado, importante instrumento relacionado aos cavalos.

Dentro dessa Sociedade Secreta, há um poema muito lindo que expressa em poucas linhas a conexão entre esta figura e o cavalo:

“Este é para o corsel com quatro patas brancas; crina e rabo amendoados; uma estrela em sua face e uma marca em seu peito; e o nome de seu mestre era Cain”.

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Ploughboy ou um “menino do arado” liderando seus cavalos em um campo escocês.

Ainda para a Horseman’s Society há também a importância de Tubal Cain como sendo o Primeiro Ferreiro e, portanto, o primeiro a criar a ferradura e demais instrumentos de trabalho aos cavaleiros e todos aqueles que trabalham no campo, revolucionando o próprio método agricultural. Segundo o livro The Society of the Horseman Word:

“No, que parece ser, a forma mais antiga do ritual, o primeiro cavaleiro é nomeado como Adão, depois que ele foi expulso do Jardim do Eden e teve que trabalhar para viver. Na música intitulada O Arado Doloroso é Adão, seguido de seu filho Cain a quem são dados como os originais meninos-do-arado (ploughboys em inglês). Durante o rito de iniciação o menino-do-arado recebe uma apresentação na qual é Tubal Cain, o descendente de Cain que é descrito como sendo o primeiro a obter conhecimento sobre a cavalaria (horsemanship, no inglês). Seu papel é relatado em brindes e catequismos da Sociedade da Palavra dos Cavaleiros (Society of the Horseman’s Word).” (Pág. 148, itálicos e parênteses pelo autor do artigo).

Ok, há uma importância em tais figuras para diversas modalidades da Arte Tradicional dos Sábios, mas seria essa relevância ao dado e assumido caráter “sombrio” ou “demonico”, do “desafiador” e do “antagonista”? Seria pela renúncia e transição traumática entre uma fé cristã e o uso “herético” pela razão de ser um incômodo aos conservadores? Seria essa importância dada ao mundo antigo realmente por uma questão freudiana familiar de encontramos “pais” e “mães” divinos? Seria pela necessidade que temos em sermos apadrinhados por uma ideologia que não nos rejeita mas nos aceita como marginais e periféricos? Seria por possuirmos (ou termos a necessidade de) um dom especial ou uma suposta condição inerente em nós mesmos como- mais um- grupo de pessoas com uma suposta linhagem sagrada e consanguinidade, ainda que seja metafísica? Seria pela união de seres angelicais-alienígenas que se rebelaram contra o “Demiurgo” e abusaram sexualmente de mulheres “belas”, injetando uma semente genética que produziu uma raça especial metafísica ou não? Sim, abusaram, afinal “tomar” no contexto textual judaico normalmente significa isso, lembram das ordens de Javé para Adão “tomar” Eva e Lilith?

Ou seria, talvez, porque a civilização judaica, tanto quanto qualquer outra de seu tempo, precisava formular uma história cultural onde ancestrais representando papeis civilizatórios e desempenhavam o que em sua cultura antiga (sumério-babilônica) eram atribuídos aos deuses mas que na nova cultura judaica foram rejeitados?

Muitos estudos antropológicos apontam para uma transição e influência natural entre culturas sumérias, arábicas e persas para a narrativa Judaica. Antigos deuses se tornaram anjos ou demônios em sua maioria, a Goetia com seus “daemons” Baal/Baal-Berith, Ashtaroth estão aí para provar isso. Um outro exemplo clássico diso na literatura é a transformação de uma das Deusas mais importantes do Oriente-Médio chamada Al-Uzza em um conhecido anjo na literatura “bruxa”, Samael/Azazel/Shemyaza (este último que significa “o nome Azza/Uzza”).

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A deusa Al-Uzza.

É claro, essa transformação em deusas em anjos, que embora sejam seres assexuados são normalmente representados como masculinos, é claramente uma tentativa de diminuir sua importância como algo feminino e de autoridade divina a um patamar de negatividade demônica. Por que, contudo não foram essas deusas transformadas em “anjas“? Bom, porque isso abriria a possibilidade de presunção entre os judeus e cristãos de que “Deus” (Javé) possui uma parte em si mesmo que é essencialmente feminina, uma vez que os anjos (e “anjas”) como “reflexos de Deus” existiriam já anteriormente ao ser humano (fosse Adão, Eva ou Lilith), argumento este que seria uma completa heresia ao sistema patriarcal vigente.

Então, para o sistema judaico, era preciso criar um bode expiatório e nada melhor do que transformar uma figura feminina potente e de grande respeito no pior de todos os anjos, o líder dos Grigori… Azazel/Shemyaza/Uzza. Tenham em mente, contudo, que esta tese não é minha e que a mesma circula em ramos de pesquisa rabínica e acadêmica a algum tempo. Referências do tema podem ser encontradas até mesmo na Wikipédia. De toda forma, acho irônico que a Bruxaria Tradicional, tão fomentada por essências femininas e de reconhecimento da potência inerente das mulheres, acabe por preservar esses padrões infelizes.

Em outras culturas orientais, todavia, a celebração da criatividade era um tema religioso constantemente vinculado as mulheres, visto que a figura divina em tais sociedades representavam muitas vezes a fonte das inspirações, sabedorias e revoluções que traziam novos desafios e novos conhecimentos, verdadeiramente uma “bênção e maldição”, tal como a marca de Cain. Na cultura Suméria, foi Inanna-Ishtar que inspirou, através de uma disputa, a dicotomia e também a resolução entre o Fazendeiro e o Pastor que brigavam por sua mão.

Festivais de colheita e plantio celebram ainda hoje a importância do processo civilizatório instigado pela agricultura mas também pelo pastoreio, a caça e ao mesmo tempo o cuidado com os animais. Tais invenções práticas de trabalho (como a do arado, da bússola e da ferradura) e evolução societária eram tidas como sendo frutos inspirados e recebidos por aspectos de forças divinas (normalmente femininas) que os incorporavam.

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Christian Friedrich Mali – Fazendeiro e o Pastor.

Não raramente, contudo, pessoas valorosas, heroicas e notáveis eram vistas como sendo representações vivas desses conceitos… manifestações vivas desta essência e, portanto, literalmente “incorporavam” isso em seu caráter. Se tornando verdadeiros “avatares”, a morte dessas pessoas trazia um novo olhar acerca delas e frequentemente essas pessoas passavam a ser reverenciadas por mérito, ao ponto de se tornarem eventualmente confundidas culturalmente com a própria divindade ou até mesmo deificados de forma proposital por um processo similar- ou igual/equivalente- ao da apoteose. Assim possivelmente nascem, deuses, “mortos benditos”, “Os Antigos” e ancestrais divinizados.

No Brasil nós temos uma figura pouco notada mas que representa algo muito importante para o Cuveen do Cervo Branco que é a figura de Sumé ou Pai-Sumé que, de acordo com as lendas nacionais foi um ser divino ou semi-divino, representado por um homem branco, andarilho e viajante que apresentou a agricultura e o plantio aos indígenas que até então eram nômades. Eventualmente, contudo, os ensinamentos de Sumé implicam uma ruptura com o modelo estabelecido da poligamia e do nomadismo indígena e por conta disso, causam insatisfação social, causando revoltas que o fazem decidir continuar sua peregrinação até que os indígenas estejam prontos outra vez para o receber. Assim, Sumé parte por cima das ondas, com seus pés sem tocar o chão para alguma região “Além do Mar” (termo que entre os guaranis faz referência ao “outro lado” ou o paraíso ancestral).

Com isso em mente e considerando as perspectivas oferecidas, se torna- ao meu ver- complicado se olharmos objetivamente para figuras como Cain e Abel e presumirmos que eles de fato foram, em algum momento, pessoas únicas e específicas e não uma construção conceitual, feito realmente de vários retalhos.

Parte de um mesmo princípio, faces de uma mesma moeda, irmãos gêmeos (independente do gênero) sempre foram escolhidos como personagens de disputas justamente para ilustrar argumentos- aparentes opostos- que eventualmente se tornam resolvidos, seja por conflito e o emprego da supressão ou através da lógica resolutiva. Isso porque gêmeos e “irmãos” são um claro motivo de assimilação entre dois aspectos (aparentemente) distintos de nossa humanidade, mas que em virtude carregam uma característica que os une como inseparáveis.

Afinal, é possível lembrar de Cain e não de Abel, ou de Rômulo e não de Remo, Castor e não de Pollux? Não seria um pouco tolo ignorarmos um ou outro em uma preferência sentimental de auto-identificação baseada em um empoderamento do ego, ao invés da Alma que a si mesma contempla aspectos ou percepções duais de si mesmo?

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Constelação de Gêmeos.

De toda forma, esse processo de construção conceitual de “quem conta um conto aumenta um ponto” é comumente citado como possível em outras figuras bíblicas tais como Davi, Salomão, Simão o Mago, João Batista e até mesmo Jesus… onde a realidade histórica desses personagens normalmente tem relevância mais em uma matéria de fé e pedagogia mítica do que de um contexto objetivo ou histórico.

Presumir que todas essas figuras obedecem uma historicidade é um tanto quanto ingênuo, considerando que até mesmo histórias e figuras mais recentes como Merlin e o Rei Arthur foram compostas por vários “Merlins” e “Arthures” ao longo do tempo e de trocas sociais entre povos que viviam relativamente próximos em uma mesma extensão de terra. Hoje, com o avanço dos métodos de pesquisa nós podemos ver mais claramente as influências desta composição que nos influenciou e nos influencia até hoje e assim entendermos com mais clareza quem realmente são tais reverenciados progenitores.

Nesse sentido, no caso de Cain e Abel, é válido olharmos a relevância de mitos anteriores ao bíblico em sociedades que originaram ou claramente influenciaram a perspectiva (herege ou não) judaica:

Em um mito Sumério já citado neste artigo chamado de “Inanna prefere o Agricultor”, nós temos o Pastor e o Agricultor como duas figuras disputando a mão da Rainha dos Deuses, da força feminina de criação e destruição, da detentora das Leis e da autoridade divina. Escritores e pesquisadores da cultura suméria, tal como Samuel Noah Krammer, afirmam que essa história é “um” dos mitos que formam o motivo e matriz originaria do primeiro assassinato bíblico.

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Inanna e Dumuzi, o Rei que eventualmente se torna ambos Pastor e Fazendeiro.

A história segue, em resumo, da seguinte forma de acordo com Krammer:

“Inanna está para escolher um esposo. Seu irmão Utu urge ela para casar com o deus pastor (solar) Dumuzi, mas ela prefere o deus fazendeiro Enkimdu. Então, Dumuzi se levanta e demanda saber o porquê da preferência dela pelo Fazendeiro; ele (o Pastor) tem tudo que o Fazendeiro tem e muito mais. Inanna não responde, mas Enkimdu, o fazendeiro, que parece ser pacífico, de um tipo cauteloso, tenta apaziguar o agressivo Dumuzi. O último se recusa a ser apaziguado, contudo até que ele (o Fazendeiro) promete lhe trazer vários presentes e até mesmo- aqui deve-se notar que o significado do texto não é um tanto quanto certo- a própria Inanna (presumidamente para compartilha-la).

Em seguida, o irmão de Inanna, o deus (também solar) Utu tenta convencê-la a se casar com Dumuzi com a promessa de joias, óleos e todas as coisas brilhantes que as mãos do Fazendeiro tocam. Inanna, contudo, recusa dizendo:

“Eu, a Dama, deverei casar com o Fazendeiro,
O Fazendeiro que faz as plantas crescerem abundantemente,
O Fazendeiro que faz os grãos crescerem abundantemente.”

O Pastor contudo, continua não aceitando a derrota, dizendo que o Fazendeiro não irá entrar em seu casamento de forma alguma. O Fazendeiro, contudo, ao final do poema, aparenta “ceder” seu posto ao Pastor em sua aparente vitória, dizendo ao Pastor:

‘Cereais eu trarei a ti,
Grãos eu trarei a ti,(…)
A Dama Inanna e o que lhe for prazeroso eu trarei a ti,
A Dama Inanna … eu trarei a ti.’”

Nesta dinâmica, presumem alguns autores, esconde-se uma possível dinâmica lunar-agricultural e uma outra solar-pastoral. Na mitologia bíblica, o episódio acima narrado seria referente, talvez, ao episódio do sacrifício de Abel e Cain que embora primeiramente Abel aparente ser vitorioso, o que se segue é a supressão do meio pastoral pelo agricultural quando seu irmão o executa.

Isto porque, provavelmente, a vida pastoral implicava normalmente um nomadismo, uma constante mudança de local enquanto a vida agricultural de Cain (relativo a Enki na história suméria) induz seu grupo societário a se estabelecer em locais fixos pela evolução civilizatória e agrária, na revolução da terra e de seu preparo. Além de claro, influenciar e induzir novas aprendizagens como a matemática, a escrita, a aritmética, a astrologia e novas formas de manufaturar ferramentas (vide Tubal Cain, pai dos ferreiros).

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Cain e sua família/clã como nômades antes de seu líder fundar a cidade de Enoch. – Arte de Fernand Cormon.

No mito sumério, contudo, há uma espécie de diferente resolução que vai além de tal dinâmica e surge na unificação do próprio regente divino da civilização suméria que desempenha e se torna ambos Pastor e Agricultor na figura do Rei Sacrificial, na mitologia bíblica talvez mais bem representado por Tubal-Cain (Hubal, dos árabes?) e no sumério, por Dumuzi. Consequentes observações astronômicas e religiosas na relação com o solo e os animais levaram a agricultura a se desenvolver de forma plena e formar as primeiras civilizações que “casavam” a sorte de seu povo com os “céus” e, novamente, com a “terra”.

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Representação artística do deus Hubal.

É claro que traço de tal casamento é importante ainda hoje para vários sistemas clássicos de magia e na Arte igualmente onde constelações se tornam vínculos estelares para a poesia mítica, ancorando os céus na terra. No caso de Cain, acho importante e relevante olharmos para o Boieiro e para a Ursa Maior (o Arado).

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A constelação do Boieiro.

Regentes, reis, rainhas e sacerdotes naturalmente incorporavam tais lendas de evolução social desempenhando importantes papeis em ritos de passagem, de escolhas e decisões, de guerra e de paz, de celebração e de lamentos. Através de demonstrações de total entrega ao benefício de seus súditos e leais irmãos e irmãs, esses regentes eram atados por juramento ao conceito de sacrifício necessário que consequentemente era repassado como exemplo aos demais, distribuindo as diretrizes divinas como condutores e revolucionários sociais. Essa ideia se preserva ainda hoje na Arte em grupos menores, de perspectiva familiar e inspirados ou descendentes de um mundo quase perdido e esquecido em prol do fluxo corruptivo e incessante das máquinas do lucro.

Nem só de lamento, contudo, vivem nossas esperanças e aspirações, mas na verdadeira auto-transformação e transmutação de nossos ideais em práticas vivas, como verdadeiros deuses na Terra, no Jardim de Uzza.

Mas e a Marca de Cain? Bom, Shani Oates abre a possibilidade de novas perspectivas acerca do tema em seu livro Star Crossed Serpent I, onde ela teoriza sobre a marca dizendo:

“Sua ‘marca’ (nós acreditamos) é aquela pela qual ele era conhecido ou reconhecido, por sua construção de cidades e gnosis civilizadora, avançando e evoluindo sociedades encontradas por eles enquanto ele vagava ao redor do globo. Sua ‘marca’ do anárquico inovador está sempre no trabalho tomado e alcançado, nas mudanças feitas por elas (i.e, ele deixou sua ‘marca’). Nós não acreditamos que isto seja uma marca física na forma de uma estigma, tatuagem ou deformidade. É improvável mas não impossível que isso pudesse ser uma marca ‘espiritual’ pois isso deveria estar presente em seu nascimento e seria a força motriz de seu dinamismo atávico. A marca poderia ter tido uma presença adicional na forma de um instrumento construtor tal como um esquadro, ou um compasso, formão, um martelo et cetera e poderia ser traduzido como um ‘sinal’. Isso poderia, claro, significar quase qualquer coisa incluindo um selo/sigilo mágico, talvez uma palavra-chave ou um aperto de mão, introduzindo ainda mais elementos e associações especulativas.

Novamente, isto é somente uma visão apresentada dentro do distinto mythos do Clã e permanece consideravelmente diferente de outros dentro da Arte em geral. (…)”

Afinal, de acordo com Mellikof, “O que era a marca e se isto era um sinal de alerta ou um meio protetivo são matérias de especulação”.

É claro, contudo, devemos lembrar que em seu processo o próprio Cain foi fadado, através da Marca em sua fronte, a estabelecer novas terras, mas nunca ser propriamente estabelecido na esfera terrestre, inclusive algumas lendas dizem que sua residência hoje se encontra na esfera de prata como o Homem da Lua junto ao seu cão de guarda. Fixo no astro e ao mesmo tempo se tornando um andarilho ele é destinado a estar constantemente em acompanhamento com as mutações, crescimentos e decrescimento das faces da Lua onde Cain se torna um vigilante da Terra, um exemplo e avatar místico das qualidades de andarilho, sábio da floresta, construtor, força revolucionária e catalisador de mudanças.

Como assassino de Abel ele acaba por incorporar elementos de seu irmão em si mesmo, evoluindo além do “homem selvagem” para se tornar tornando ele próprio um paradoxo. Unindo e evoluindo, sua figura nos é apresentada como “completa” em seu ciclo através da figura de seu descendente Tubal Cain, análogo a Weyland, Vulcanos e Hefesto… o verdadeiro Rei Sacrificial, o Mestre da Forja.

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A Árvore de Dumuzi.

Referências Bibliográficas:

OATES, Shani. Star Crossed Serpent I. Mandrake of Oxford: Oxford, UK, 2012.

OATES, Shani. Star Crossed Serpent II. Mandrake of Oxford: Oxford, UK, 2012.

OATES, SHANI. Devil’s Supper. Anathema Publishing ltda: Montréal, Canada,2017.

KRAMMER, Samuel Noah. Sumerian Mythology. Via: https://www.sacred-texts.com/ane/sum/index.htm .

RENNIE, Billy Rennie, MUNRO, James S., SINGER, William, et al. The Society of the Horseman’s Word. The Society of Esoteric Endeavour. Leicestershire, UK. 2009.

MELLINKOFF, Ruth. The Mark of Cain. University of California Press. London, UK, 1981.

Um experimento para invocar o espírito profético de Sybilla.

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Esta prática é uma adaptação do Cuveen do Cervo Branco de uma conjuração descrita no Livro de Magia de Cambridge, um grimório apresentado como um manual de “necromancia” mas também presumidamente escrito por um cunning-man ou um “homem-sábio” tal como era comum na Inglaterra durante o século XVI, acredita-se que o autor seja Paul Foreman.

Neste experimento busca-se contato com o espírito de Sybilla que claramente remente às profetizas do oráculo de Delfos, as sybill, pythias ou sacerdotisas sacras que serviam ao Deus Apolo e Dionísio como, acredita-se, duas faces solares (crescente e decrescente, solar e ctônico) de um mesmo princípio em Delphi/Delfos.

Muitos autores acreditam nas atribuições de Apolo como representante solar da organização social, as leis, a música, os dons, a arte, a cura e seus remédios/venenos enquanto Dionísio possivelmente representaria o “Sol da Meia Noite” ou ainda, aspectos mais “selvagens e lascivos da característica fértil da potência solar, de forma que se manifestava em buscas de visões através de enteógenos, de orgias e da caça.

Segundo a crença, Apolo vivia por 9 meses no templo do oráculo onde ele comungava das profecias sociais que atendiam reis, príncipes e plebeus igualmente, mas quando os meses de inverno chegavam, em certos momentos as portas do oráculo eram fechadas aos visitantes e era Dionísio que ocupava as festividades. Em tais momentos acredita-se que ocorriam práticas selvagens entre as mulheres (majoritariamente) sacerdotisas, tais como a de comer carnes cruas, de matar animais com as próprias mãos, orgias, magias, transes e caçadas selvagens por entre as florestas. Nesses bosques de Parnassus ele cavalgava em sua pantera seguida pelas bacantes, de Bacco/Dionísio, suas fieis seguidoras.

É deste panorama em que sobreviveu a imagem memorial da Sybill, que significa literalmente “sacerdotisa-profetiza” e na tradição grimorial ganhou um nome próprio, quase como se o “todo”, os corpos das sacerdotisas houvessem se tornado um só conglomerado sob título, e agora nome, de Sybilla.

No novo mundo, catequizado pela Igreja Católica, essas mulheres e profetizas foram renegadas ao mundo subterrâneo e até infernal, embora não fossem más o suficiente para ocupar as regiões mais “maléficas” do Abismo e por isso, ainda estavam sob o julgo do deus cristão quase como em um estado neutro de existência.

Muitos foclores foram, com o tempo, caindo em uma parte do nosso inconsciente que é parcialmente se lembra dessas figuras, através da anamnese, mas que no mundo cristão só poderia pertencer ao reino “feérico” dos espíritos híbridos entre humanos e demônios, quase como que semelhantes aos gênios da tradição sufista.

É em Elphame, ou Elfheim, ou Reino dos Elfos, derivados fortemente das tradições escandinavas, onde os ancestrais deificados se tornavam imortais pela lembrança e culto de suas principais e proeminentes características. Nesse lugar também foi destinado inúmeras tradições e mitologias que custaram a ser esquecidas pelo povo, pelo folk-lore (conhecimento popular).

Neste reino que possuía um Rei e uma Rainha, normalmente se atribuía a “Ele” o nome de Oberon/Oberion que possivelmente deriva do Germânico “Alberich” (Alb = Elfo, Rich = Rei, Regente). Para “Ela” contudo, segundo a tradição folclórica não se atribuía nome algum, embora muitas referências a ela sejam feitas com títulos próprios como Mycob, Myeob ou Micob que provavelmente derivam do título Mab/Mabel que por sua vez vem do Latim amabilis significando, como é claro, amável.

Um outro nome que destacamos é Titânia/Tytam/Tytar, este último por conta da caracterização de Shakespeare pois segundo a ideia dele, ela era filha dos titãs dos tempos anteriores à ordem cósmica, dando um caráter antigo e ancestral similar ao de Hekate. Cochrane estava correto quando disse que “Shakespeare realmente conhecia sua bruxaria”.

Ironicamente, os dois títulos “d’Ela” denunciam sua natureza como amável mas ao mesmo tempo temível e gigantesca força titânica, descendente de tempos caóticos e mais antigos até mesmo que o Cosmos, de forma que sua força seria ao mesmo tempo encantadora e assombrosa, tal como é o próprio Abismo.

Ainda, segundo a tradição, a Rainha das Fadas e seu consorte Oberon/Alberich tinham 7 filhas que os seguiam como suas atendentes e discípulas de tal Tradição. De acordo com a tradição grimorial seus nomes podem ser:

LILIA + RESTILLA + FATA + FALLA + AFRIA/AFRICA + JULYA + VENALLA

Ou ainda:

HODELFA + LUAFULA + SEDAMYLIA + JULIA/IULIA + ROQUIAN/ROVIAN + SEGAMEXE + DELFORIA

Tais nomes podem ser encontrados em Grimórios/Manuais de Magia como no “Livro de Oberon/Book of Oberon” e “Livro dos Ofícios dos Espíritos/Book of the Office of Spirits” ou ainda no Grimório de Arthur Gauntlet (que também era um cunning-man/pellar/homem-sábio na Inglaterra).

Por fim, segundo outros manuais-grimórios, os tais seres feéricos ainda possuem 4 atendentes que recebem o nome de:

DURIS + ARKVUS + RAMES + DUBARKUS

Pessoalmente, nosso Cuveen preserva e trabalha com tal “Tradição” de Grimórios através da atribuição de cada um dos 7 nomes aos 7 planetas e cada um dos 4 nomes a cada um dos 4 pontos cardeais do Compasso dos Sábios. Aqui, contudo, provemos uma adaptação filtrada com aquilo que é essencial ao conceito da conjuração desse espírito de Sybilla que claramente era uma potência de importância singular.

Em toda tradição grimorial que recebemos, seguimos, adotamos ou formulamos nós sempre mantemos aquilo que consideramos mais pertinente aos nossos caprichos, tentando evitar superstições cristãs característica dos tempos, tais como obrigar ou comandar esses espíritos ou até atá-los sob uma figura patriarcal divina, mas ao invés, convidamos essas forças de coração e espaço aberto às suas influências sob a virtude de Nossa Senhora Inominada da Noite e sinceramente, até então, estamos somente colhendo bons frutos desses encontros.

Ademais, nós sempre tentamos ao máximo compreender o que os nomes divinos em tais conjurações significam e de onde derivam para sabermos utilizar sua força sem a cega repetição (essa, acreditamos, não possui efetividade). Assim, nós sempre fazemos uma extensa pesquisa etimológica em dicionários, mitologias e foclores afim de encontrar traços que nos indiquem a ideia por detrás de termos em latim, grego ou hebraico tal como era comum.

Por fim, vale dizer que não acreditamos que “x” ou “y” linguagem tenha mais “poder” que a outra e, portanto, não vemos necessidade em recitar liturgias ou textos em latim como era costume na época. Acreditamos também os espíritos não possuem uma determinada língua, mas que nos comunicam através do silêncio da mente e que tal tradição provavelmente deriva de uma forma herege e psicológica de ativar a alma para a sensação do latim como uma linguagem mística comumente restrita aos padres e sacerdotes. Assim, se desejar procurar pela invocação original no latim, pesquise nos Grimórios supracitados.

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NOTA: *** Nós não nos responsabilizamos por qualquer uso, seja ele fidedigno ou equivocado ao que disponibilizamos e também sob suas consequências ao trabalho com tais espíritos e recomendamos sempre o respeito e a plena consciência de sua ideia de trabalho antes de efetivar esse experimento oracular ***

Para ler mais sobre seres feéricos, acesse o artigo:
https://sanguedaforja.wordpress.com/2018/09/04/fadas-elfos-e-seres-feericos/

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Se você não possui vidência oracular, você pode ir (preferencialmente) em uma segunda ou quinta feira em um cemitério e pedir a um ancestral ou um famoso vidente de onde você mora que, por simpatia, sua visão seja aberta ao “Outro Lado”, assim como a dele é.

 Para isso vá de noite (preferencialmente) no cemitério com uma água consagrada pela luz da Lua, derrame ou coloque ela sob a tumba do morto, pise com seu pé esquerdo na tumba da pessoa e com o direito na terra enquanto ora com fé e fervor algo como:

“ NN (Nome do Falecido) possa a sua Visão ser/estar na minha Visão
Que seu sono desperte a minha própria Visão
Para ver o Oculto, ver seu poder e sua revolução e me ajudar na necessidade
Possa o Espírito Santo (de Nossa Senhora da Noite)
Me garantir e entregar vosso poder

No nome do Divil/Diabo e do Santo Crucificado (o Deus Sacrificial)
Assim Seja!”

Em seguida, pegue a água consagrada e faça três cruzes sobre cada um de seus olhos. Descanse e siga com a operação e experimento de Sybilla em outro dia.

AQUI COMEÇA O EXPERIMENTO DA INVOCAÇÃO DE SYBILLA

Faça esse experimento e operação preferencialmente quando a Lua estiver em signos aéreos, tais como Gêmeos, Libra ou Aquário. Os reinos sublunares em conjunção com os espíritos aéreos que carregam todo o conhecimento do mundo, o conhecimento “akashico” são ótimos para esse tipo de operação embora essas conjunções sejam não sejam “necessárias” é uma forma de sintonizar VOCÊ para tais influências mais facilmente.

Você vai precisar de: um cajado/bastão, dê preferência para amendoeira, nogueira, carvalho, freixo, cereja (ou acerola), figo e principalmente para a aveleira; uma vela de cera virgem, natural de abelha (compre ou faça uma se for necessário). Opcionalmente, se você tiver experiência oracular, no lugar da vela pode-se utilizar também um espelho negro.

De preferência para realizar a operação em um local natural e aberto aos céus. Assim, com um bastão ou um cajado, faça três círculos concêntricos de tamanho razoável (para comportar você) no nome das Três Mães cósmicas da criação (Mem-Água, Shin-Fogo e Aleph-Ar) ao seu redor.

Em seguida, acenda a vela e a segure com sua mão direita enquanto reza:

“Eu vos conjuro, espírito chamado de Sybilla
Pelos nomes de Coa+, Rocoa+
Trenda+ Norma + Ristilato +
Sibella profatisiuator+
Catica + Cauca+¹

Pela Arte da Magia, pelos grupos infernais² e seus tributos
Senaulfor Volgor
Que você venha sem demora para esta vela abençoada e limpa
e esmeralda afortunada, se pondo fixa,
Fortificada pela Escuridao.

Aplicando diligência e santificada pela luxúria feminina e imunda³ menstruação
debaixo da Cruz com a ambrosia da graça,
Você glorifica, permanece e estabelece: faça depressa!”

Repita até ela aparecer na chama da vela e então, quando ocorrer e você tiver a visão desta dama dançante diga:

“Bem vinda, Senhora”.

Tire agora um momento para contemplar e oferecer incensos ou outras oferendas/sacrifícios e então diga algo como:

“Pelo nome do Rei Cristo (ungido) Sacrificado
Pela Cabeça de João Batista
Pela Sabedoria de Salomão³
Pelo Trono e Diadema de Nossa Senhora
Eu vos conjuro a me revelar e me mostrar (seu propósito oracular)!
Vá e volte com uma gema em vossas mãos
Para que eu possa ver, saber e reconhecer esta verdadeira sabedoria!”

Quando sua intenção estiver firme e fixa no propósito e fé em Sybilla, ela irá diligentemente buscar e prover a sua resposta, se tudo ocorreu certo até este ponto. Tenha em mente que isto é, mesmo nos Grimórios, um “experimento” e de maneira alguma garante um resultado matemático, mas como o nome diz depende da própria realização experiencial do praticante. Saiba também que o “retorno” de Sybillia pode vir na hora e espantar com tanta clareza ou em sonhos e até em outro momento em que sua voz suspirar a resposta de seu pedido oracular.

 Tenha em mente, todavia, que resultados não satisfatórios não significam ausência de resultado e embora sempre tenhamos alcançado resultados incríveis e muito maravilhosos, caso a falta ou ausência aconteça com você, que estamos lidando com um espírito atado e “subordinado” somente a vontade de sua Rainha inominada, portanto, buscar um relacionamento a longo prazo é sempre a melhor maneira de estabelecer uma **real** conexão com esses princípios e forças através de suas formas manifestas.

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¹ Os nomes divinos, acreditamos, podem derivar (e seguimos essa interpretação) das seguintes ideias:
*Coa = Do latim, prostituta (neste caso, sagrada).
*Trenda= Raiz germana de “revolver, circular, anel, círculo”.
*Norma= Do latim, examinar, medir, decretar, lei.
*Ristilato= Possivelmente do Latim e do Italiano “re-estilizar”? Dar nova forma? Norma Re-estilizada (novo testamento gnóstico?).
*Caua= Caverna? Caucasus? Figurativamente no italiano se refere às galinhas, de forma que em um sentido poético poderia se referir a uma capacidade maternal de proteção.

² Infernal deriva do latim infernum que significa “local inferior, submundo” e é usado aqui na conotação de “habitação dos mortos”.

³ A Sabedoria de Salomão, aqui, representa (para nós) uma tradição que afirma a origem da Sabedoria (Chockmah) deste rei como sendo feminina e não derivada de Yahweh mas sim de seu contato com outros povos do Oriente que tinham sua Deusa como ápice e encarnação da Sabedoria, fosse Inanna, Ishtar, Astarte ou Asherah, todas cognatas de certa forma com a Sophia dos gregos.

 

 

Entre a Cruz, o Círculo e o Compasso.

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Ingênuo é aquele que ignora os preceitos da cruz hermética em trabalhos da ciência oculta por repulsa aos arquétipos e relações religiosas comuns. Muito mais do que um símbolo-estandarte da cristandade, a Cruz pode variar entre muitos aspectos dependendo da via em que o praticante e místico decide trilhar. Seja como símbolo; mapa; referencial ritualístico; sistema; veículo; proteção; encaminhamento; local de sacrifício, altar ou qualquer outro desígneo tradicional da magia, a Cruz nos oferece uma belíssima perspectiva por vezes sincrética e herege.

Em uma forma básica e comum nós podemos assinalar os quatro elementos aos pontos de uma cruz embora seja verdadeiramente em seu centro o verdadeiro e sublime axis que nos fala sobre um trabalho extensivo de desconstrução e renovação afim de que possamos encontrar as chaves para abrir as portas do labirinto ao seu centro. Neste ponto nós adicionamos um elemento que ata ou interliga, sendo este a essência imaterial e metafísica de força e forma conjuntas, o fogo da forja que é alimentado por sangue e suor espiritual.

Essa interessante e curiosa dinâmica de 4+1 nos oferece uma reflexão acerca da similaridade entre o Pentagrama venusiano e a Cruz do místico que brota a rosa, também como o Ventre Negro da Terra se relaciona com as capacidades de Beleza, Amor e Verdade relacionadas com a Dama Vênus (vulgar ou celestial) e ainda por fim como surgem as muitas Virgens (não casadas) Negras presentes no amor cortês, na cavalaria franco-germânica e em vínculos com ordens consagradas no imaginário ocultista, tal como a dos Templários.

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Como uma realidade de intersecção, uma encruzilhada de caminhos que convergem ao Q’tub ou o Ponto Axial dos Mistérios ou que partem aos quatro cantos do mundo e ainda aos Oito Pontos do Compasso da Arte esse simples símbolo da materialidade, da realidade física que começa na fundação da matriz objetiva e nos expande muito além do óbvio. Como Oito, podemos ter a relação com o conceito hindu das loka-palas, isto é, os “Guardiões do Mundo” ou “Guardiões das Direções”, descrito pela irmã Blavatsky como Ashtadisa ou as “oito faces que atam o Espaço” esses Oito Pontos compreendem os quatro pontos cardeais com adição dos intermediários.

Como pontos estelares e angelicais, na magia tradicional e até mesmo cerimonial algumas estrelas e constelações são correlacionadas com antigas percepções de tempo-espaço da realidade física para com a cósmica. Aos persas e antigos, essas quatro estrelas principais eram descritas como Estrelas Reais e por vezes eram vistas até mesmo como antigos ancestrais-sábios elevados ao patamar de seres divinos, angelicais-feéricos, que presidiam sobre as estações correspondentes:

Regulus: Trazendo o Verão ao Sul.
Antares:
Trazendo o Outono ao Oeste.
Formahault:
Trazendo o Inverno ao Norte.
Aldebaran:
Trazendo a Primavera ao Leste.

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Hoje, 5.000 anos depois, obviamente as estrelas estão em uma percepção diferente da que ocupavam então, porém, sua simbologia mística permanece em muitas tradições e embora não seja a proposta deste presente estudo vale notar que frequentemente atribuem cores especificamente designadas a engatilhar em nossa mente diferentes tipos de processos elementares e psicológicos.

Em simplicidade a cruz nos oferece o básico Merkebah, o veículo do místico e profeta rumo às esferas celestiais ou aos submundos do subconsciente independente de sua forma como quatro, seis ou oito direções. Seja como for, a Cruz é sem dúvidas um ponto de partida iniciatória para qualquer um que tenha olhos para ver pois é ali que o Mestre encontra sua assinatura na alma de seus seguidores. Ali, marcados e reconhecidos como “um” de sua longa corrente e bando de irmãs e irmãos atados pela Companhia, como gatos na noite e como aves de rapina refletindo o luar em nossos olhos. O círculo que delimita a área é simbolicamente também aquele que a expande, visto que não possui nem fim ou começo ele é metafisicamente passível de eterna mutação tal qual o nosso próprio universo.

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Rascunhos de Alquimia por Isaac Newton.

Vale notar que em certas tradições místicas, o espaço sagrado entre a cruz (ou as cruzes) e o Círculo da Arte é “fixado” magicamente na realidade através de uma faca ou de um ou mais pregos (magicamente sinônimos em certos contextos), as vezes inclusive cruzados como realidades convergentes. Assim, reconhecendo a Eternidade Além do Tempo ou Kairos como o “tempo dos deuses”, tais práticas estabelecem também um mapa prático, mental, emocional, físico, místico e obviamente espiritual com esses muitos mundos que cercam e são interligados com a nossa realidade material.

Insisto em dizer, contudo que não há qualquer capacidade de engajamento que possa ser liberada desses muitos universos dobrados em si mesmos sem estudo, meditação e muita (mas muita) dedicação devocional de interação, vontade, possibilidade, necessidade, entendimento e sobretudo uma enorme sede (diferente de ambição) por Sabedoria. Tal é a natureza dos Mistérios.

Carregando a “Marca” de nossos antepassados e ancestrais, em tal cruzamento nós podemos ver os ventos, os elementos, os mundos, os espíritos, os deuses e até mesmo a célebre alquimia do TETAGRAMATON seja ele através de sua clássica forma kabbalística em YHWH, na versão 1734 ou em sua versão hermética-alquímica dentro do cristianismo místico em I.N.R.I que não significa meramente a afirmação de “Iesus” como o “Rei dos Nazarenos” (” Iesus Nazarenus Rex Iudaeorum “ ) mas sim “Ignes Natura Renovatur Integra” ou “A Natureza é Renovada Integralmente pelo Fogo”.

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Cruz templária em uma igreja-caverna na Cappadocia, Turquia. 

Processos alquímicos podem frequentemente carregar a conotação cruzada dentro desta representação, incluindo os clássicos estágios básicos da transmutação renovadora de Nigredo, Rubedo, Albedo e Citrinas. Como processos de longa duração, esses períodos podem ser divididos em estações, dias, meses ou anos dependendo da necessidade de cada peregrino.

Essa última e simples codificação certamente nos oferece o elemento prometeico e evolutivo, daqueles mestres da Forja e da transmutação material ou imaterial do Eu. No Ignis Centrum, no Centro Ígneo, nós acendemos a fogueira sacrificial de nossa ignorância, oferecendo, dissolvendo e entregando todos os nossos obstáculos que impedem o progresso civilizatório da nossa alma em transmigração. Um verdadeiro sacrifício que requer sem dúvidas uma boa dose de loucura, coragem e ousadia embora o temor da estagnação seja sempre presente, como deveria ser até que possamos encontrar aquele ponto de Graça que balanceia ambos pilares da nossa existência, entre força e forma.

Claro nesse sentido, não podemos esquecer que basicamente uma cruz é formada por dois braços, dois pilares de força e forma, intersectados para formar o que aos os nórdicos era a runa Gyfu, aquela da troca igualitária, da reciprocidade e do sacrifício.

Aos Hindus para a adoração de Agni é repetida uma forma básica e prática, mas que reflete belamente a capacidade da cruz de se relacionar com o fogo necessário aos trabalhos de transmutação que é através da fricção de dois gravetos para a produção do fogo (sacrificial)!

Tal potência criativa e renovadora também é daqueles que nos oferecem a chama e a tocha repassada de mão em mão na longa e consecutiva corrente de pérolas da Dama Sofia-Sabedoria, pois estes são parte da virtude que ilumina consecutivamente Adocetyn, a Cidadela de Deus ou Hermópolis como a Cidade criada por Hermes – o patrono das artes sábias e da Alquimia ou a Arte Real.

Segundo a lenda, Adocetyn possui quatro portais e entradas, quatro caminhos e quatro direções que conduzem ao Centro que possui uma espécie de fortificação com uma singular torre que muda seu topo de cor a cada um dos 7 dias em respectiva ressonância com os sete planetas, os sete espíritos angelicais e suas potências.

 Em cada um dos pontos cardinais ou em cada quadrante de Adocetyn-Hermópolis é posicionado uma besta totêmica que varia em perspectivas diversas, mas que condensam usualmente a capacidade divina e angelical de proteção e guia em seu aspecto antropomórfico.

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Adocetyn.

Não muito longe das tradições Herméticas que consagram a Cruz como sua Cidadela Espiritual, aos gnósticos os quatro pontos de um quadrado eram representados por elementos e nomes divinos presentes na cosmologia mística, respectivamente eles eram representados como Sige (Silêncio), Bythos (Profundidade), Nou (Alma Espiritual ou Mente) e Aletheia (Verdade).

Portanto, tradicionalmente na magia os pontos de um cruzamento são vistos como direcionamentos do cosmos, pelo qual a nossa realidade, nosso planeta, se torna possível de existir e acessar a origem e o desenvolvimento do Todo.

– Lagrillon. 
Headkinsman para o Cuveen do Cervo Branco.

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Divil oferecendo a Marca ao Iniciante.

A Palavra dos Sábios.

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Diversas ordens místicas e simbólicas possuem o imaginário e mitologia da Palavra, esta que seria uma espécie de senha, chave ou até mesmo um anagrama que com seu poder e segredo, abririam as portas dos céus e das regiões ctônicas ou infernais. A mitologia acerca da Palavra nos evoca uma ideia clássica de que a mera recitação de nomes divinos ou fórmulas mágicas pudesse nos garantir a certeza de um impacto no Universo. Todavia, sua verdadeira natureza mística tem muito mais a oferecer ao sábio do que a manipulação de seu universo material perceptível.

Aos Hebreus, herdeiros colaterais da magia egípcia e suméria, essa tradição feiticeira é vista nos 72 Nomes de Deus via Kabbalah ou através de mitos bíblicos e apócrifos como o de Lilith que adquire independência ao recitar o nome divino do deus El/Yahweh (Enlil). Essa típica característica da magia foi carregada, assimilada ou meramente manifestada até mesmo aos anglo-saxões e regiões mais nortenhas onde fórmulas rúnicas se misturavam com nomes cristãos em grimórios de bindrunes ou de leech-doctors e dos homenns sábios (cunning people), que eram os curandeiros e benzedeiros daqueles povos.

De toda forma, diversas sociedades incluem em seu modo iniciático uma passagem de uma secreta força-chave que penetra e embute na alma do praticante uma marca, tal como a de Cain, como um meio de assinalar, separar, identificar ou até mesmo vivificar uma natureza, espírito, força ou virtude interior do então neófito para se tornar um verdadeiro Iniciado nos Mistérios que ele se propõe a buscar.

–  Maçonaria

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Na Maçonaria há a o senso e o mito da Palavra Perdida pelos construtores do Templo de Salomão que é senão uma clara alegoria mística para a ideia da construção do Templo Interior. Na história,Hiram Abiff é o Mestre do Templo que possui a palavra-chave para a sua construção e supostamente essa palavra teria, segundo lendas, até mesmo propriedades milagrosas e mágicas. O que acontece, contudo, é que ele é assassinado por três companheiros da Arte que desejam adquirir a palavra a todo custo, mas Hiram como um bom artífice sabe que o silêncio e a discrição são duas virtudes fundamentais para a manutenção da virtude de seu ofício e nega revelar a Palavra em todas as três vezes que ele é confrontado, o que causa a sua morte pela mão de seus traidores e a consequente perda da Palavra para sempre (ou não).

No dia seguinte, Salomão envia seus homens afim de encontrarem Hiram e em sua procura eles encontram um sepultamento debaixo de uma árvore de acácia, o rei diz aos seus homens que Hiram deve ser tomado como um exemplo de um verdadeiro artesão que mantém sua honra e sacrifício, preferindo morrer do que entregar seus segredos aos ignorantes. A acácia, tenham em mente, simboliza a vida eterna por ser uma árvore perene, que não perde suas folhas anualmente, de forma que seus ramos dourados nos lembram do Ouro dos Filósofos e dos Alquimistas, aos quais a Maçonaria frequentemente é relacionada em seus simbolismos.

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“Levantando o Mestre” – Arte de Giovanni Francesco Barbieri (1591-1666).

Salomão, contudo, afim de manter a tradição dos construtores viva, sendo ele instruído nas mais altas sabedorias, provê uma nova e substituta palavra para que os seus companheiros não percam a sua conduta em desespero. A palavra substituta segundo a lenda, entregue no terceiro grau de Mestre Maçom, seria MAHABONE.

O significado e tradução do hebraico daria “O que? O Construtor?” embora algumas traduções variem entre Construtor e Filho ou Mestre. Como poderia, contudo, uma mera palavra ter tamanha importância e significado mágico dentro de uma sociedade? Bom, talvez o seu verdadeiro significado esteja velado por etimologias oblíquas, anagramas e gematrias mas alguns maçons dizem que a importância da Palavra Perdida não se refere a sua verdadeira pronúncia e sim a sua própria busca, tal como a da Pedra Filosofal para alguns.

  • Horseman’s Society, Moleiros e outros filhos do Diabo.
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Diabo levando uma Bruxa em seu Cavalo – Crônica de Nuremberg.

Há também, outras versões da Palavra, como por exemplo, entre os Horseman Society ou a Sociedade dos Cavaleiros na Grã-Bretanha, frequentemente associadas com os Toadman, duas sociedades secretas um tanto quanto desconhecidas no Brasil. Essa sociedade seria uma organização fraternal, mística e segundo alguns relacionadas a própria noção de Bruxaria na Inglaterra e Irlanda. Conhecida também como A Palavra dos Cavaleiros, essa sociedade secreta surge ou emerge publicamente em meio a tantas outras, tais como a dos Moleiros que era uma outra associação do gênero, todas buscavam proteção e troca entre os seus companheiros de ofício visto que as condições de trabalho nem sempre eram favoráveis.

Segundo as lendas, esses homens derivariam sua sabedoria de figuras titânicas e descendentes de Caim ou Tubal Caim que, nas histórias, são os primeiros domadores de cavalos. De acordo com a lenda, descrita no livro de William Rennie e Ben Fernee:

As Origens da Cavalaria:

“Três homens abordaram o trecho de um rio em suas carruagens de bois. O rio estava largo e o fluxo forte. No banco do rio eles encontraram uma mulher que lhes pediu para ser levada para o outro lado da água. O primeiro recusou, assim como o segundo. O terceiro tinha o nome de Tubal Cain e ele concordou. A mulher viu que ele era bom e em retorno de seu bom ato ela ofereceu para ele ou os segredos acerca dos cavalos ou o segredo das mulheres e convidou a ele escolher um dos dois. Tubal Cain considerou sua oferta e então respondeu dizendo que ele preferiria ter metade de cada um deles. Ela concordou. Quando eles estavam na metade do rio e ela estava na metade da explicação dos segredos da cavalaria o rio subiu e ela foi levada para fora da carruagem e afogada no rio pelas forças da água. Então, metade dos segredos da cavalaria e integralmente os segredos das mulheres foram perdidos. Se nós tivéssemos todos os segredos da cavalaria nós poderíamos fazer os cavalos falar.” (pg. 100).

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“Você não vai arrumar o meu cavalo também?” – Arthur Elsley.

Interessantemente a mulher aqui é a verdadeira possuidora de todos os segredos da Arte ensinada para Tubal Cain. Nesse contexto presumivelmente a própria mulher afogada seria capaz de fazer os cavalos falar e quem sabe o que mais possuindo os segredos inteiros a respeito da mulher… ou da “Mulher” (i.e a Divina Natureza da personagem).

É claro que na Arte Tradicional (Traditional Craft) nós temos nomes um tanto quanto relevantes e que merecem estudos na correlação com tais fraternidades e sociedades. Dois deles são Robert Cochrane (cujo pai, alegadamente era um Horseman) e George Pickinghill onde o primeiro fundou o Clã de Tubal Cain e o segundo tinha seu nome relacionado a 9 Cuveens (sinceramente, não imagino como ele conseguiu)!

Segundo uma lenda acerca Pickinghill, este último teria previsto o renascimento da Velha Arte ao ano de 1962, data que Ronald Hutton observa, coincidentemente, como sendo a primeira publicação de Robert Cochrane que cunhou o próprio termo da Bruxaria Tradicional -embora o uso da mesma tenha sido vertido em uma direção aparentemente oposta do que ele havia tido a intenção- e sem dúvidas trouxe uma nova perspectiva inovadora para o que então era resignado ao âmbito da Wica(sic).

Segundo Shani Oates, Dama e/ou líder feminina do C.T.C (Clã de Tubal Cain) o fato do pai de Cochrane ser um “horse whisperer”(sussurrador de cavalos/membro da sociedade supracitada) talvez tenha influenciado a escolher o nome do artífice mítico em metais para o seu próprio Clã.

Esse personagem (Tubal Cain) obviamente tem uma grande importância no folklore popular acerca da Horseman’s Society (Sociedade dos Cavaleiros), visto que ele é a incorporação do primeiro metalúrgico cognado com Weyland dos Saxões; Baal-Haddad dos Assírios/Fenícios; Volundur dos Nórdicos; Hefesto/Vulcano dos Greco-Romanos e assim por diante. Os ferreiros, obviamente, são quem produzem as ferraduras para “calçar” o cavalo e com ferraduras nós também temos diversas superstições que carregam pedaços fragmentados de sabedorias ancestrais, tal como uma ferradura com sete buracos ou sete pregos de forma a representar corpos estelares. Inclusive, curiosamente uma das poucas exceções que um Horseman/Cavaleiro pode abrir para contar acerca da Palavra é para um ferreiro, posto que ele compartilha de tal sabedoria ancestral e foi o ancestral de todos os ferreiros (Tubal Cain, descendente titânico de Cain) que aprendeu os primeiros segredos da Arte.

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Weyland, o Ferreiro. Por Gherts, 1883.

Cain também participa com um papel um tanto interessante visto que a lógica nos diz que ele foi o primeiro agricultor e portanto o primeiro domador de cavalos- embora as vezes as fontes variem entre ele e Adão- pois Cain precisava ter controle de tais animais para utilizá-los na lavoura junto com o arado no campo. Aliás, uma outra guilda ou variante incorporada no Ofício de um Horseman era o dos Lavradores (ou ploughman, literalmente, “homem-do-arado”).

 

De toda forma, voltemos para a Palavra. Os Moleiros, citados anteriormente, isto é, aqueles que eram profissionais do Moinho, tinham que a Palavra seria “A-R-T”, o que estabelece uma relação clara com a tradição da Maçonaria se identificar como “The Craft” ou “A Arte” por extensão dos Alquimistas que se denominavam como “A Arte Real dos Sábios” onde talvez o termo “Real” presente no nome seja uma referência ao Sangreal ou Sangue Real: o Sangue Divino dos Reis Sacrificiais de antigamente.

O estudante da Arte Tradicional sabe que o Moinho possui uma importante conotação expandida na literatura ocultista primeiramente em larga escala através de Evan John Jones em seu livro “Sacred Mask; Sacred Dance” onde ele analisa diversos tipos de danças espiraladas e em labirintos (físicos ou simbólicos) que em muitos momentos são sentidos como se fossem um moinho que gradualmente nos reduz ao mais básico dos nossos estados psíquicos e depois nos transforma em uma unidade para servir o “divino banquete”. De fato o Diabo era chamado as vezes de Moleiro.

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Labirinto -Biblioteca Apostolica Vaticana. 

 Já em uma versão da Horseman’s Society palavra seria “C-A-L-P-E” que se referiria ao Monte Calpe ou Gibraltar em referência a um dos dozes trabalhos de Hércules em transpor um estreito marítimo que, por necessidade, ele superou em abrir caminho com seus enormes ombros, ligando assim o Mar Mediterrâneo e o Oceano Atlântico. De um lado, haveria ficado o Monte Calpe e do outro o Monte África ou Musa e simbolicamente a Sociedade dos Cavaleiros, aparentemente, usavam essas duas montanhas como referência aos Dois Pilares místicos relacionados com a Maçonaria (Boaz e Jachim) e com a Kabbalah (Pilar da Misericórdia e Pilar da Severidade).

Em outra versão, a Palavra da Horseman’s Society seria “O-N-E” (um) e a Prática (mística) seria “AMBOS COMO UM”, que faria referência a união do homem ao seu cavalo como sendo um só. Uma filosofia certamente importante para o trabalho com equinos, uma vez que evitaria o maus-tratos aos animais tanto quanto estabeleceria uma conexão emocional e psicológica para com os cavalos e por consequência, melhoria o desempenho de trabalho dos participantes da sociedade.

Em suma a Palavra, dentro destas sociedades, instrui misticamente mas também praticamente o trabalhador ou artífice em sua própria natureza e ambiente de operação, seja ele espiritual ou físico. De todo, a Palavra proveria uma certa estabilidade e uma base de filosofias e estruturações que forneceriam prestígio, conhecimento e um tanto quanto de benefícios nas superstições ao redor da imagem desses homens, visto que todas essas sociedades eram relacionadas com o Diabo na figura de Old/Auld Nick.

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– Cristianismo Místico e Gnosticismo

Claro, ainda temos a Palavra na figura de Christos (misticamente falando) que encarna a figura do Pai e da Mãe como um. Nesse sentido ele é o Logos ou Rhema, ambos dando uma conotação de “Verbo”, “Palavra” ou ainda “Sabedoria” que denotam uma ação, um ato a se pôr em prática ou talvez ainda para se viver como na ideia de “ser” através da manifestação do arbusto em chamas- estudantes místicos assíduos vão saber que a origem deste é muito mais antiga do que de Moisés- onde o Divino se manifesta como “Ehyeh Aser Ehyeh” ou o “Eu sou o que Eu Sou”, normalmente referido como o “Grande Eu Sou”.

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Cito aqui ainda a sabedoria gnóstica e hermética que fala a respeito da Trimórfica Protenóia ou Barbelo, assimilada com Hekate onde ela se define como sendo “O Discurso da Mãe”, “A Voz do Pai” e a “Palavra do Filho”. No sentido místico desse contexto o Filho Hermafrodita é visto como a conjunção de sua Mãe e de seu Pai, do Masculino e Feminino e como tal ele é Hermes-Toth e seu cajado ou Seth como a linha sacerdotal, o Logos encarnado e por consequência o Christos ou o Ungido e em suma a sabedoria Kabbalística da união entre os aparentes opostos na criação de um Terceiro Pilar (Central) da Escada Mística que nos leva de volta a Coroa Celestial.

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De toda forma, a Tradição nos fala sobre “Ser” aquilo que é divino e unificar as potências aparentemente distintas como Masculino e Feminino em sua natureza e estudo, fazendo assim com que possamos ser nós mesmos e encontrarmos ao olharmos para dentro de nós o/a Portador/a da Luz Divina, o Lúcifer Encarnado, o Logos ou o Cristo-Ungido onde a unificação de nossas potências celestes e terrestres; animalescas/selvagens e humanas; solar e lunar, branco e vermelho tornam-se completas e restauradas em sua matéria prima ou matéria escura da qual podemos finalmente fertilizar o solo abaixo de nós para brotar nosso corpo adamantino e voarmos tal como a Fênix alquímica.

Fica claro que cada Família, Corrente ou Tradição possui sua própria maneira e codificação de assimilar tal Discurso enquanto a busca e o próprio labor em se dedicar uma vida inteira para perseguir a imagem do Nome Divino trazem, de toda forma, uma recompensa enorme para o verdadeiro buscador. É aquele velho clichê que fala acerca da viagem e não (somente) do destino, sabem?

Por fim considerando a tradição gnósticas e talvez uma das mais antigas correntes de pensamento filosófico-hermético-herético sobreviventes em texto, é um tanto quanto interessante notar como a Palavra ou o Logos deriva, na verdade, do Discurso da Mãe assim como Tubal Cain (Mestre Alquímico da Forja) aprendeu seus segredos pela mulher que buscava cruzar o rio, trazendo uma nova perspectiva e talvez um pouco desfavorável à excessiva carga de testosterona presente na Bruxaria e na Arte Tradicional dos Sábios, seja ela manifestada na Maçonaria, na Alquimia ou nas sociedades místicas do proletariado britânico.

Referências Bibliográficas:

EVANS, George Ewart; BARKHAM, Patrick. Pattern Under the Plough: Aspects of the Folk Life of East Anglia. Nature Classics Library.
Oates, Shani. The Horseman’s Word Revealed. Fonte: https://clantubalcain.com/2017/04/17/the-horsemans-word-revealed/
RENNIE, William; FERNEE, Ben. The Society of the Horseman’s Grip and Word. The Society of Esoteric Endeavour.

Dumb Supper – A Ceia Silenciosa (Dos Mortos).

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A “Dumb Supper” significa “A Ceia Silenciosa”, é um termo que se popularizou dentro da Wica (sic) e na Bruxaria através de autores como Paul Huson (Mastering Witchcraft). Essa cerimonia ocorreria, especialmente durante a época de Finados ou como é tradicionalmente chamada no inglês britânico: Hallowmas.

A descrição de tal ceia na Arte dos Sábios fala acerca de comer e beber com os mortos, de cear com aqueles que já partiram para o Outro Lado. Basicamente uma mesa, com ao menos uma cadeira destinada aos mortos, é montada e os ancestrais do grupo, da família ou do praticante são chamados para se sentar junto aos vivos nesse momento. Antes ou depois, formas oraculares de manifestação podem ocorrer ou serem induzidas. Algumas variações incluem andar para trás e trazer certos métodos de “aparente reversão” como uma ajuda psicológica para adentrarmos no submundo.

O autor acima citado menciona a seguinte invocação para convocar a sombra dos mortos:

Pelos mistérios das profundezas, pelas flamas do banal, pelos poderes do leste, pelo silêncio da noite e pelos ritos sagrados de Hecate eu chamo a vós pelos laços do amor, espírito de [nome do morto] para quebrar vosso jejum eterno comigo. Que assim seja! (pg.81).

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Claro, esta é um chamado tão bom quanto o que o seu coração pode oferecer mas algumas pessoas gostam de receita pronta. A quietude nesse sentido vai muito mais além, claro, do que o de não vocalizar ou fazermos qualquer barulho embora esses também sejam partes de sua manifestação.

Aqui, o “Silêncio” nos remete filosoficamente aos gnósticos, através de Valentinus, onde Sige representava um importante processo ritualístico e iniciático. Para esses, Sige representava o divino feminino poder criador, enquanto fazendo par com seu oposto masculino (Bytho). Interessantemente, segundo Irenaeus, Charis ou Graça/Beleza/Vida é um outro nome para essa mesma potência divina.

Também é curioso percebemos que a gloriosa divindade Charis, dentro da cultura greco-romana não é outra senão a esposa de Hefesto/Hephaestus, o Deus da Forja! Claro, é curioso percebemos como certos padrões se repetem ao longo da história e a assimilação da Divina Vênus/Afrodite nesse caso é uma importante exploração para todo aquele que se interessa pela Arte Tradicional, ou mesmo pela Bruxaria.

Silencio (Também conhecida como Deusa) por Bertram Mackennal, feita em bronze..Jpeg
Silêncio (também conhecida como Deusa), por Bertram Mackennal, feita em bronze.

Para a Arte, a observância do planeta e esfera de Vênus nos remete aos primeiros povos do Oriente Médio onde ela era exaltada aos demais como a Rainha dos Céus, Inanna-Asherah-Ishtar/Astarte-Ashtoreth! Obviamente, com a migração dos povos e naturais assimilações, sua relação foi estendida ao resto da Europa e Grã Bretanha onde “Ela” foi adotada com muitos nomes diferentes, embora todas a associem com o princípio criador através de sua capacidade como Geradora.

Durante a Idade Média, o folclore criado ao redor da witch tinha muito com a Ars Veneris ou a Arte Venusiana, do amor, do encantamento e da paixão. Claro, na prática nós sabemos que isso vai muito além da mera ideia romântica ou florida do Amor e sim nos fala de uma conjunção iniciática entre dois princípios cósmicos.

Na Europa, as variações do nome da Dama Vênus incluem: Dama/Frau Venus, Frau Holda, Frau Holt, Freya/Frigg, Dama Perchta/Berchta, Dama Branca ou Negra (dependendo da época e do Trabalho).  Vênus naturalmente sendo a primeira estrela que aparece no céu matutino, recebe o nome de “Lucífera” ou portadora da luz, título esse compartilhado com Hekate e Diana, ambas divinas alegorias e potências associadas com as bruxas. Para Regino de Prum, certas mulheres ímpias:

Durante a noite eles cavalgam afora com Diana, a Deusa dos pagãos, também conhecida como Heródias, com uma inumerável multidão sobre certas bestas”.

Mascarados, assumindo a forma totêmica de seus seres essas mulheres (e homens) cavalgam com os ventos durante a noite, dançando ao redor de grandes árvores e em montes ou montanhas. Obviamente, há uma clara continuidade (linear ou não) de antigos ritos iniciatórios dentro de locais assim, visto que sua associação com a Morte e o Renascimento se dão através do útero terrestre da Mãe que é ambos: “Ventre e Tumba” (Shani Oates em Pacto de Hallowmas: Hael aos Mortos Grandiosos!).

 

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Totentanz, por Nigel Jackson.

Diversos autores, tais como Nigel Jackson, Robert Cochrane, Evan John Jones, Shani Oates e Robert Graves evidenciam a relação da Arte Tradicional dos Sábios com a dupla faceta do Divino Feminino em suas manifestações como “Clara/Branca” e “Escura/Negra”, tal como a deusa nórdica Hela. E que de outra forma seria, para um sábio, o seu processo iniciatório, senão aquele através da assimilação, do reconhecimento e realização das aparentes oposições?

Reconhecido até mesmo pelo vaticano, a Virgem Negra nos remete a Venus Obscura mas também a terra enegrecida pelos compostos orgânicos consumidos como energia e fonte vital de proteínas para a floresta. Claro, dentro da perspectiva cristã, a Virgem Negra é associada com Maria Madalena, mas também com a Sabedoria de Salomão que é “Negra, mas amável”.

Acerca do culto a Virgem Negra, Ean Begg descorre que este:

 

“Parece apontar na direção de duas alternativas em particular. Uma é a alternativa da igreja de Maria Madalena, James, Zacchaeus, Gnosticismo, Catars, Templários e alquimistas … (que) contém muito da sabedoria das antigas religiões tanto quanto um novo fenômeno que alcançou a consciência no século 20, tais quais o Santo Graal e o amor cortês” (Teresa Burns, Journal of the Western Mystery Tradition).

A segunda opção é a de um “judaísmo herético”, que faz total sentido se pensarmos que o culto a Rainha dos Céus sobreviveu por tanto tempo dentro da sociedade judaica, ao ponto de Moisés, Isaias e Jeremias tecerem constantes críticas e maldições contra o povo Judeu, que saiu da Mesopotâmia originalmente e carregou consigo o culto aos “Postes de Asherah” e a “Rainha dos Céus” (Inanna-Ishtar).

Assim, podemos ver, voltando a temática do Silêncio dentro do processo iniciático, como esse se associa com camadas profundas e diversas de associações senão o mero “calar” (quem pratica magia, contudo, sabe o quão importante isso é). Não, o Silêncio da Ceia dos Mortos nos fala da quietude da alma mas também de seu assombro quando a escuridão e o enegrecimento da matéria nos atinge. Vocês já viram quão silencioso é um cemitério a noite ou mesmo durante o dia? Minha bisavó dizia que ali era seu local de descanso mesmo durante a sua vida justamente por ser quieto.

O Silêncio é uma capacidade de congreçarmos com deuses e mortos de uma forma simples mas muito antiga. No vácuo, no abismo ou no completo ponto-zero da mente, nós nos unimos com os princípios caóticos e ao mesmo tempo harmônicos da natureza onde o paradoxo de “sermos tudo, quando somos nada” se torna verdade e aqui podemos experimentar uma associação natural entre vida e morte. Simples como o é, quando o verdadeiro silêncio (auditivo, mental e “visual”) nos atinge muitos acabam experimentando uma sensação de pavor, de Pan-ico.

É nessa impressionante e grandiosa realização da escuridão que o verdadeiro homem sábio ou a verdadeira mulher sábia é iniciada. Aqui nós entendemos como a vida, a beleza e a graça surge do frio, do abismo e da morte.

Com os mortos, nós dispomos uma mesa e uma ceia na escuridão e eventualmente a iluminamos com as velas ou candeias, simbólicas da memória e da alma, de forma que nós possamos lembrar que através da nossa manutenção em amor, honra e (principalmente) dever que nós mantemos a memória de nossos entes queridos, imortal.

Através deles nós recebemos presentes, insights, revelações, augúrios e proteção mas sobretudo, ainda que não ganhássemos nada em troca, nós sabemos que o favor deles e os sacrifícios em vida para que pudéssemos estar aqui é mais do que o suficiente para honrarmos a continuidade do seu legado.

Com eles nós comemos o fruto da sabedoria, a antiga maçã que revela dentro de si o antigo caminho planetário de Vênus ao redor do Sol: o Pentagrama. Com ele nós, hereticamente, transformamos o que é vulgar em sacro, o que é mortal em imortal e aquilo que é transitório em permanente.

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Bruxas levantando voo para o Monte Sacro, Desenho por Nigel Jackson.

A presença dos ancestrais é uma coisa para poucos, não por ser assustadora mas porque poucos verdadeiramente escutam o que precisam ao invés do que desejam. Poucos pois suas vozes sussurram de uma forma muito diferente que a maioria dos entusiastas ao processo oracular com os finados acredita que irá encontrar.

Nota de agradecimento: Nesta Ceia de Finados, o Cuveen do Cervo Branco agradece a Dona A. que já em sua idade avançada pôde reconhecer o traço dos nossos trabalhos como verdadeiros e por associação, emparelhado com os de sua família. Nós agradecemos por sua contribuição aos nossos estudos, pelo material hermético e tradicional doado, transferido e entregue para nós.  Através dos anos de trabalho de Felix V., Isabel V. e Gladys V. em suas pesquisas e registros, nós honraremos devidamente o Trabalho alquímico, mágico e sábio desenvolvido por esses como uma família tanto de sangue como de Trabalho Mágico, pois é o melhor que podemos oferecer. Felix sempre será lembrado dentro de nossa família como um verdadeiro ocultista, sábio, inventor e magista tradicional tanto quanto um irmão Rosa-Cruz e um perfeito Maçom.

Bênçãos de Finados a todos!

Referência bibliográfica:

Burns, Teresa. Journal of the Western Mystery Tradition. No. 12, Vol. 2. Vernal Equinox 2007. The Little Book of Black Venus and the Three-Fold Transformation of Hermetic Astrology. Também disponível via website:  http://www.jwmt.org/v2n12/dee_hermetic.html.
HUSON, Paul. Mastering Witchcraft: A Practical Guide for Witches, Warlocks & Covens. iUniverse: EUA. 2006.
JACKSON, Nigel. Call of The Horned Piper. Capall Ban: Freshfields Ln, Chievely. 1995.
OATES, Shani. The Covenant of All Hallows: Hael to the Mighty Dead. Via website: https://clantubalcain.com/the-covenant-of-all-hallows-hael-to-the-mighty-dead/
OATES, Shani. Tubelo’s Green Fire. Mandrake of Oxford: Oxford. 2010.
JONES & OATES. Star Crossed Serpent. Mandrake of Oxford: Oxford. 2012.
OATES, Shani. Star Crossed Serpent II. Mandrake of Oxford: Oxford. 2012.

Ars Goetia e os Demônios Alquímicos: Haagenti/Haagenith e Baal-Berith.

Parte 01.
Dentro da nossa família da Arte, do Cuveen do Cervo Branco, há um grande enfoque no trabalho alquímico do ser. Nessa senda árdua, porém reta, o praticante deve buscar entender primeiramente os conceitos subjetivos dos símbolos, da geometria, a história mítica e ancestral da nossa família e da Arte, a paisagem legendária e todas as ferramentas do trabalho antes de ele engajar com qualquer tipo de espíritos per se.

Para Crowley, famoso magista da filosofia de Thelema, “os espíritos (demônios) da Goetia são partes do cérebro humano”. Ao dizer isso em sua introdução de Lemegeton Clavicula Salomonis, Crowley quebra com o precedente trabalho supersticioso da Goetia como meramente um compilado de demônios para serem usados ao bel prazer e baixa vontade do praticante como um meio para um fim maior.

Para nós, igualmente, os demônios da Goetia representam o mapeamento mítico e alquímico de reflexões do divino e são ambos: espíritos divinos e chaves intelectuais para a liberação de algo muito mais abrangente. Na verdade, acredito que todos os grimórios que temos acesso deveriam ser tratados com um olhar suspeito para com as superstições envolvidas no processo.

Se as pessoas se desligassem um pouco da obsessão em fazerem feitiços, amuletos e rituais para “verter” ou “torcer” a realidade ao seu prazer, ou para a sua baixa vontade, do seu ego… talvez tivéssemos coisas muito mais interessantes para discutir que brigas políticas entre grupinhos ocultistas no Facebook ou de propagarmos/banalizarmos a cultura superficial do esoterismo Brasileiro. Também não teríamos feministas precisando dizer #notyourbabalon ou #nãosousuababalon para homens frustrados e reclusos no mundo cibernético procurando escapes para suas masturbações egóicas.

Contudo, voltando ao nosso estudo… é sabido que muitos demônios da Ars Goetia são derivados de culturas mesopotâmicas, fenícias, assírias e também de outras pós-diluvianas na região do Mar Negro. Espíritos como Ashtoreth (Ishtar-Inanna), Bifrons (Janus Bifronte), Baal, Naberius (Cerberus) e outros são claramente incorporações de conceitos divinos do mundo clássico.

Outros, não tão especificamente claro por estudiosos, seja por falta de provas ou evidências não conclusivas, ficam na periferia da interpretação acadêmica, tendo suas origens resignadas às tradições e grupos que mantém diferentes berços históricos ou míticos para a fundação de tais seres.

De toda forma, seres angelicais ou “demoníacos” podem e atuam como receptáculos sincréticos, psicopompos, guias e mistagogos na descoberta do Grande Trabalho. Não à toa, alguns desses seres eram inclusive incorporados nos trabalhos alquímicos como regentes de específicos experimentos e extrações da natureza.

Ao convocar, invocar ou conjurar um desses espíritos, o praticante traz para si ambos: as qualidades divinamente infernais, do subconsciente, cujo processo normalmente ele é inconsciente mas que carrega uma tremenda carca espiritual-energética e aquelas do imaginário, de sua Verdadeira Imaginação, que são as próprias chaves conscientes para filtrar e completar o processo mágico de personificação de sua necessidade e desejo.

Todo trabalho mágico, na verdade, depende de certos fatores comuns. Na Arte, acredito, sempre se trabalha com ambos aspectos Altos e Baixos da Magia, no sentido de que os aspectos mais básicos da fertilidade -não digo aqui de sexo necessariamente, mas sim daquilo que envolve as questões energético-psico-espirituais da matéria e da forma- são usados como meras fundações e meios para abrirem os portais astrais e finalmente adentrar no tempo e reino dos deuses antigos. Dessa forma nós trabalhamos com ambas, a Taumaturgia e a Teurgia.

Através da nossa aproximação para com “Deus”(es/as) nós nos levamos ao estado “in betwixt”, por entre os mundos… e eu diria que, por consequência, de certa forma, Deus(es/as) também se achega para mais perto da nossa alma.

Precedente a essa aproximação, contudo, na nossa família e Cuveen, são efetivados trabalhos engajados na tradição Ocidental de trabalho sincrético com outras culturas que nos informaram parte dos traços culturais que nossos ancestrais mantiveram mesmo depois de migrarem para além do Oriente e das culturas que inicialmente entraram em trabalho com Os Antigos (deuses e ancestrais).

Dentro desse trabalho estão dois daemons (não “demônios” no conceito cristão, obviamente) que são tratados e lidados como os regentes de certos processos alquímicos. Um deles começa e processa o trabalho e o outro, finaliza-o com a realização do trabalho nos portais místicos do renascimento. Esses são Haagenti/Haagenith e Baal-Berith.

Para fins de exploração com os meus colegas da Arte, iremos dispor de breves interpretações culturais que acreditamos ter a possibilidade de refletir a origem contextual para o Grande Trabalho que engajamos com o auxílio dos espíritos e seres do Caminho da Arte dos Sábios. Iremos dividir esse artigo em dois, para melhorar a leitura. Hoje portanto, nos serviremos de Haagenti/Haagenith.

Haagenti

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O quadragésimo oitavo espírito é Haagenti, Hagenti, Hegenit, ou Hagenith. É um presidente aparecendo na forma de touro alado e tomando forma humana ao comando do Magista. Sua função é fazer homens sábios, e instrui-los em coisas sobre os mares e oceanos; também transmuta todos os metais ordinários em ouro e o vinho em água e vice versa. Governa 33 legiões de espíritos.

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Primeiro, quero dizer que não focaremos especificamente no trabalho prático-mágico desses daemons pela Ars Goetia em seu registro “grimorial” mas sim nos contextos culturais possíveis pelos quais podemos traçar a origem mítica desses seres. É particularmente difícil quando um nome não indica necessariamente a cultura pela qual a Goetia buscou traduzir tal força/forma em seu trabalho, alguns são evidentemente gregos, outros assírios-mesopotâmicos e outros até mesmo persa.

No caso, alguns supõem que Haagenti pode derivar seu nome de Jagannath que é uma divindade adorada no Budismo, no Hinduísmo na Índia e Bangladesh. Para alguns, curiosamente, ele é uma forma manifesta de Bhairava que é um aspecto fervorosamente amedrontador de Shiva e seu número sagrado é, ironicamente ou não, 33 (o mesmo número de legiões de Haagenti).

Vale também notar que Shiva tem seu animal totêmico relacionado com o touro chamado de Nandi e este é o protetor dos portais do reino de Shiva. Esse touro foi tido de forma mística como sendo o Mistagogo e professor dos Mistérios de Oito Sábios que foram mandados para oito direções do Compasso Sagrado para ensinar a sabedoria do Shivaísmo.

Em uma análise simbólica, a característica totêmica de Haagenti/Haagenith conecta-o com as capacidades terrestres e das manifestações da matéria, enquanto suas asas o transcendem para a habilidade e natureza transitória entre os muitos céus que nos separam da Divindade. Por esse motivo, atuando como um belo agente transmutador entre os baixos e altos metais da alquimia interna e externa!

Além disso, é interessante notar que diversas outras culturas tiveram o Touro como uma manifestação primal das forças criadoras e manifestadoras do mundo material, sendo um dos primeiros animais a ser domesticado para a agricultura familiar de nossos ancestrais nós podemos imaginar como um de nossos antepassados observou a virilidade do touro e como seus chifres o protegiam.

Especialmente, o touro alado é conhecido em toda a cultura suméria através do Lamassu que é um representante celestial de constelações e corpos estelares, de forma que eles servem como protetores e guias para toda a vida que habita entre esses corpos. Em suas manifestações como guardiões, os lamassu’s eram representados através de imagens de argilas e enterrados na porta das casas ou dos templos afim de que sua virtude como protetor de tais mistérios familiares pudesse ser refletido em sua imagem física.

De todo o corpo desse animal fabuloso nosso ancestrais poderiam tirar proveito de algo que lhes fosse útil. Tanto a Vaca quanto o Touro são associados com aspectos familiares de Mãe e Pai primordial. Ambos animais são classicamente associados com a Lua, o primeiro astro de maior relação com a Terra, tendo sua relação com Yesod (Fundação [Dos Mistérios]) na Kabalah. Todavia, ao mesmo tempo, por inversão, o Touro também pode ser associado com Binah-Saturno sendo o último planeta do sistema clássico, fazendo a conexão entre os reinos celestes e terrestres.

Desta forma, para nós, do Cuveen do Cervo Branco que opera em bases herméticas e indo europeias, o daemon Haagenti/Haagenith representa esse traço cultural trazido por nossos ancestrais do Oriente ao Ocidente, praticamente e efetivamente servindo como um guia, protetor e transmutador alquímico dos metais densos e sutis nos trabalhos teúrgicos, telúricos e taumaturgos, unindo e conectando as esferas celestiais e infernais.

 Para os mesopotâmicos ele era o Touro dos Céus; no egito ele se torna Apis, encarnação de Ptah e Osíris; aos hebreus ele era o próprio deus El (Toru El – O Deus-Touro) e Haddad; aos gregos ele era Cronus e Janus/Zeus/Júpiter.

 

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Referências Bibliográficas:

CROWLEY, Aleister (editor); BETA, Hymenaeus (editor); Liddell, Samuel (tradutor). The Goetia: The Lesser Key of Solomon the King: Lemegeton – Clavicula Salomonis Regis, Book 1. Red Wheel, 1995.

Fadas, Elfos e Seres Feéricos.

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Um “Peri”, seres feéricos e angelicais do foclóre persa por Gustave Moreau, (1826-1898).

Tenha em mente você, que as ditas “fadas” aqui ditas não são seres alados e viventes em um reino de pura alegria, prazeres e encantos infantis. Ao menos não é acerca desses seres que nós dirigimos esse textos, então se você procura algo mais romântico… continue procurando.

A origem da palavra “fada” no português deriva de “fatum” (fado, destino, causalidade), o que provavelmente dá sentido para a ideia de “encantar” no uso medieval de “fatare” como sendo o meio pelo qual um praticante de magia encontra o efetivo uso de suas habilidades, através do Fado e o seu conhecimento (oracular ou por desenvolvimento pessoal de sua percepção extrasensorial).

No inglês, a palavra fairy ou fairies deriva, provavelmente, de “peri” do Oriente Médio. A razão da mudança de “f” para “p”, aparentemente se dá pela ausência dessa segunda letra no vocábulo árabe, transformando peri em feri. Assim como muitas coisas foram trazidas fisicamente pela imigração dos peregrinos e Cavaleiros da Cruz e introduzidas ao mundo Europeu, seres e conceitos também se mesclaram com outros pré-existentes.

No original persa-muçulmano, a definição dos “peris” alude a um ser criado por “Deus” como uma forma co-existente com a humanidade. Esses seres inicialmente seriam aéreos ou alados e conectados com a capacidade de transmitir, guiar e “arrebatar” humanos nos quais eles tomassem interesse ou que conseguissem engajar com seu mundo.

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Um Peri alado (via Wikipedia)

Muitos “peris” eram descritos como sendo velados, possivelmente como uma representação metafórica para estarem “do outro lado do Véu” mas ainda assim em nosso mundo. Algo com um entre cá e lá.

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Um Peris sentado. (via Pinterest)

As vezes deuses assumem a característica de peri,  como por exemplo a divindade Sraosha/Sorush cujo nome significa, quase literalmente, “Anjo/Voz da Consciência”. Nas histórias ele aparece para um antepassado heroico do Irã como um desses potentes seres para avisá-lo (como um meio profético) de certos perigos impostos em sua jornada. Como Sraosha, muitas vezes esses seres feéricos atingem ou assumem um patamar natural de orientadores, mediadores, ou mensageiros da alma… como “porta-vozes” do Divino, da Dama Fado. Especialmente para aqueles que ousam viver a jornada do herói.

 A esse ponto, acho que fica claro para o leitor a qualidade que os peris/feris possuem como guias proféticos, como formas e seres que a nossa consciência percebe e comunga quando necessário ou possível. Como agentes psicológicos e espirituais da consciência, professores e psicopompos da luz astral e da alma, eles podem ser vistos também como “encarnações” ou “personificações” da Divina Providência, aquela parte do Divino que nos é mais íntima e próxima da humanidade.

Sraosha/Sorush é, inclusive, tido como sendo o “Professor de Daena”, sendo que Daena representa a consciência religiosa do devoto ou místico e em suma, de certa forma, a aplicação de sua moral/ética religiosa no seu dia a dia pela qual ele adquire a sabedoria e experiência (conhecimento aplicado). Ou seja, em sua forma peri/feri ele se torna o professor da consciência e da alma religiosa, devota/mística.

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A divindade Sraosh/Sorush como um Peri (em um manuscrito épico de Shanameh, do Shah Thamasp).

Particularmente, acredito que a nossa consciência em um dado momento, como humanidade, sentiu a necessidade de preservar a sombra daqueles sábios, daquelas primeiras mulheres e homens ilustres que andaram na Terra e ascenderam aos reinos espirituais, ao “outro lado” em vida ou em morte. Esses pioneiros tornaram-se pouco a pouco, através de suas virtudes em vida, exemplos a serem seguidos, adorados por seus devotos e familiares eles tornaram-se relíquias de nossa mente coletiva, de nossas famílias e comunidades.

Seus descendentes, literais ou não, certamente olhavam para aquele ilustre fazendeiro, ferreiro, tecelã, profeta ou alquimista e desejando compartilhar uma medida de sua sabedoria, tentaram preservar a sombra de seus feitos importando para dentro dessa projeção do que um dia fora um ser humano um  certo raio de luz divina, uma porção de divindade, da “Verdade” e de Sophia (Sabedoria)… transformando, dando vida ou apenas reconhecendo a essência e emanação astral desses santos homens e mulheres.

Elfos, igualmente aos peris- mas dos povos nórdicos e indo-europeus- tornaram-se confundidos mais tardiamente com os conceitos do Oriente Médio previamente mencionados. Ganhando asas como óbvios meios de conduta e orientação por esse elemento místico e feições mais glamorosas, suas associações com a Dama Vênus certamente fizeram com que tais povos ganhassem novas características, até sensuais, de forma que alguns grimórios até mesmo relatam meios para efetivar conjunções carnais com tais seres.

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Ilustração do livro Astrologer of the 19th Century sobre “Como Invocar Oberon”, por R.C. Smith.

Não estranhamente Oberon/Oberion- ninguém menos que o rei de Elfame (Elfheim ou Reino dos Elfos)- aparece em manuscritos de homens sábios como Arthur Gauntlet e no “Livro de Magia, com instrução para Invocar Espíritos, etc.,” (1577-1583) com uma descrição de um aparente djin (“gênio”) do oriente médio, até mesmo com um turbante! A conexão entre as duas culturas, do Oriente e dos Indo-Europeus é nítida se nós olharmos para trás com as ferramentas de análise histórica que temos.

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Duas ilustrações de Oberon no manuscrito Folger ““Livro de Magia, com instrução para Invocar Espíritos, etc.,”. 

Em ambos grimórios a capacidade de encontrar tesouros e dar profecias são atribuídos a esses seres. No Brasil, a lenda de “botijas”- pequenas jarras de barro contendo tesouros- são frequentemente tidas como sendo encontradas devido as comunicações de espíritos para com os aventureiros. As vezes, alguns espíritos são entendidos como sendo “atados” as botijas e ao ato de encontrar um desses vasos de tesouro pode liberar o espírito para sua jornada final ou iluminar a pessoa que as procura com uma sabedoria ou presentes do “outro lado” (dons e afins).

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Botija com ouro, encontrada na Califórnia no quintal de casa por um casal.

Talvez as botijas tenham se transformado em recipientes de tesouros porque, aqui no Brasil, os indígenas eram enterrados em grandes vasos de barro? Dando uma indicação, talvez, de que a verdadeira “riqueza” de tais recipientes residia na ancestralidade da terra em que pisamos? Talvez eles fossem atados à tais recipientes porque depositaram uma grande quantidade de desejo material e precisavam que alguém as encontrasse para transferir essa energia ou desejo para outro que pudesse melhor transmuta-la? Difícil saber, mas maravilhoso de se especular.

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Urnas funerárias indígenas (e uma forquilha), foto por Hélio de Aguiar.

De toda forma, como já dito, as “Fadas” em diversos meios e grimórios da magia são relacionadas aos dons da profecia e aos de encontro de tesouros. Perde-se, contudo, aquele que acredita ou se enamora pelo brilho do falso ouro, do ouro de tolo, em sua ganância do ego e desta vida materialista. Não, a riqueza, o brilho e o verdadeiro tesouro desses seres aéreos e ancestrais são aqueles do espírito, aqueles que nos falam da nossa herança e divindade.

Eu até mesmo já escutei que um bom bruxo/a deveria ser próspero (financeiramente) ou não seria um bom bruxo. Partindo do princípio, claro, de que uma boa “bruxa” deveria ser hábil o suficiente para moldar ou manipular seu destino ou realidade, o suficiente para ser próspero financeiramente. Eu entendo que essas pessoas não estejam falando de riqueza absoluta, como se todo magista ou bruxo deveria ser rico, mas ter um grau de contentamento ou de riqueza financeira… mas ainda assim, essa linha de pensamento sempre me puxou um pouco para trás. Será mesmo que isso deveria ser assim?

Será que na nossa sociedade, todo magista ou ocultista, bruxo ou místico, deveria, como prova de seu sucesso ou sabedoria, ter essa prosperidade? Claro, cabe a cada um de nós construir nosso futuro e todos nós desejamos um futuro próspero e feliz, mas será que na nossa sociedade latino-americana, no nosso Brasil, não existem diversos motivos (sobrando) para não sermos prósperos ou não termos sucesso financeiro?

Eu não sei vocês, mas aqui nós matamos um leão por dia-  as vezes para alimentar outro leão e matar ele no final do mês como alimento- e as coisas estão ficando cada vez mais difíceis.  Viajando ao redor do mundo eu conheci diversos magistas, ocultistas, artistas, místicos, homens e mulheres sábias… alguns passavam por muitos perrengues financeiros, dificuldades e tristezas naturais da nossa sociedade e cultura. Em países “desenvolvidos” eu vi fome, preocupação e desespero. Pessoas muito mais bem próximas da cultura que dizemos viver, na Europa e Grã-Bretanha, pessoas que comungam com o reino dos elfos, ancestrais e sombras de séculos e séculos em locais de poder e virtude, onde ancestrais do paleolítico fizeram seus primeiros sacrifícios em templos e cruzamentos muito mais antigos que o primeiro edifico do Brasil.

Nada disso nunca preveniu ninguém de se ferrar financeiramente na vida. Tenha em mente, os ancestrais da Arte viviam em zonas rurais, em locais de pobreza e frequentemente tendo dificuldades em sua vida material. Os grimórios que contam milagres e recontam histórias fabulosas datam de uma época onde a impressão ou cópia de um manuscrito presumia a literalidade do autor e consequentemente sua condição financeira ou status social para preservar conhecimentos que chegavam até ele, muitas vezes oralmente ou através do folclore.

O que quero dizer é: tá tudo bem não ser próspero financeiramente e ser um magista. Você não precisa usar e abusar da exploração comercial ou econômica da nossa sociedade só para se passar de um bruxo fodão não. Nada disso é prova de uma boa sabedoria, se fosse não existiria tanta exploração salarial, empresarial e profissional.  Existem feiticeiros muito mais conhecidos ou renomados que você que caçam para viver. Duvida? Vá até uma aldeia indígena, um quilombo ou uma comunidade do tipo em que conhecimentos tradicionais são preservados oralmente e veja qual é a verdadeira riqueza desse povo.

Passou da hora da galera da bruxaria, do paganismo, parar de exaltar esse novo tipo de teologia da prosperidade e especialmente usando folclóre, grimórios e coisas do tipo para justificar uma meritocracia ou elitismo disfarçado. A vida é difícil mesmo, meu amigo(a)… e você ainda vai se ferrar muito, mas você pode enfrentar isso como um resignado, como um meritocrata ou como um bom guerreiro. Só nunca esqueça que um guerreiro só o é depois de ter voltado da batalha, como vencedor, vivo ou morto.

Tenha em mente que um Leprachaum não vai cair na sua porta com um pote de ouro, um elemental não vai te fazer subir de carreira e surgir propostas maravilhosas. Esses seres vivem na mata, nas pedras e nos obscuros cantos das cavernas do nosso self e não no seu desejo pessoal ou na briga de cargos da sua empresa ou escritório. Nesses locais ermos onde habitam os verdadeiros “elfos” e grandes ancestrais da sua história você pode encontrar o seu verdadeiro tesouro profético, a sua real poesia de vida.

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“A Midsummer Nights Dream Act Scene Full S” por Al Dawe.

 O conhecimento e sabedoria que esses seres podem te oferecer, todavia, em como administrar as bênçãos e as maldições que a Dama Fado dá podem te ajudar a, sem dúvida, viver uma boa vida em que você equilibre com muita razoabilidade e entendimento amplo, aquilo que você deseja e aquilo que deve ser feito. Lembre-se, contudo, que aquilo que é necessário ser feito é sempre muito maior do que aquilo que desejamos e que a batalha não é contra algum feitiço que o seu inimigozinho da internet fez para você por inveja, é contra os seus próprios demônios.

Honre seus ancestrais e as heroínas de sua família, não importa quantos séculos atrás sempre existirão pessoas honrosas e impressionantes de grandes feitos e virtudes, seja um rei, rainha ou uma servente, todos eles terão a te ensinar e estão te esperando para você se abrir para eles e parar de procurar diamantes em um chiqueiro.

Não tem canela que se sopre que supra um bom discernimento dentro de um investimento e muitas vezes você não vai ter isso, seja por falta de conhecimento ou experiência, seja porque você não nasceu em uma classe favorecida ou uma família abonada de oportunidades. Seus ancestrais e o seu re-conhecimento deles de uma forma ou de outra podem te ajudar a enfrentar todas as dificuldades com o amor que seus predecessores tiveram ao continuar a linhagem tão única que formou o que você é hoje. Não se engane, muitos sacrifícios foram feitos para que você estivesse aqui… muitos mesmo.

 Honre o fato/fado da sua existência, dando o melhor na sua vida em crescimento de consciência, onde reside a verdadeira joia da mente e lembre-se que de fato, a melhor maneira de prever o futuro é construindo ele. Seus ancestrais, conhecidos ou desconhecidos, reencarnados ou como guias esperando o processo de reencarnação… todos eles passaram por tantas marés desse mundo, experimentaram tantos governos, economias e condições sociais, magistas ou não, todos eles podem ter algo a te oferecer… se você quiser e saber onde procurar.

Eu não digo nem necessariamente que o fantasma da sua “tatataravó” que benzia ou o seu trisavô por parte de pai que tinha um livro de S. Cipriano vai aparecer pra você em sonho e te dizer como fazer um feitiço ou ritual, ou te revelar que tu é parte de uma tradição de bruxos de uma região específica da Europa mas eu te digo com toda certeza e fé que os seus ancestrais irão estender a mão espiritual da sabedoria que eles possuem e através da sua pesquisa, das suas meditações e das suas observações… tu vai conseguir discernir, pouco a pouco, como eles te influenciam sempre, mesmo sem serem óbvios.

Os dons de profecias são relacionados ao engajamento e relação com a Dama Fado/Destino e são característica de todas aquelas mulheres exaltadas em poemas ou em contos antigos que nos dizem sobre “feiticeiras” e “videntes” ou “profetizas”. Volvas, pitonisas, sibilas… do Oriente ao Ocidente, de Norte ao Sul, todas essas mulheres (e ocasionalmente homens) se tornaram os guardiões que retém, de uma forma ou outra, a corrente iniciática de volta para nossos ancestrais proféticos.  Honre-as, honre as mulheres da sua linhagem (materna especialmente) e não se preocupe em nomear elas ou dar características específicas, nada disso importa realmente no produto final da coisa.

Lembre-se também que você não é “João”, nem “Joana”, nem “Carlos”, nem “Carla” somente… você é uma alma sem nome, sem forma, sem sexo e sem gênero que adere, em múltiplas reencarnações, diferentes vestimentas para aquilo que é de mais afinidade nas suas vindas aqui na Terra e sobretudo o que é mais necessário para a sua evolução ao invés da sua estagnação.

Encontre seus tesouros, encontre seus ancestrais, descubra as verdadeiras fadas e elfos que guiam a sua vida através dos rios e correntes da Dama Fado no Monte Ancestral de Venusburg!

– Lagrillon.